terça-feira, 12 de maio de 2015

That fucking crown

É fácil dizer "levante a cabeça e siga em frente, todo mundo tem problema" quando não é você que passa fome por três dias seguidos de vez em quando, que não tem dinheiro pra pagar hotel barato e vai dormir no chão frio da rodoviária duas ou três vezes por semana. Que chega a desmaiar na rua de cansaço, de fome e de tanta dor na alma. Ainda que aceitar esse risco tenha sido uma escolha muito consciente sua. Algo radical, que te arrancasse de uma estagnação de morte e fizesse sua vida voltar a se movimentar. Como de fato aconteceu. E agradeço tanto por isso. 

É fácil dizer essas coisas quando não é você que não consegue trocar duas palavras com o pai sem que ele faça você sentir que é um lixo de ser humano, que faz tudo errado, sempre. Que não recebe um único olhar ou abraço dele quando volta pra casa uma vez por mês para o tratamento psiquiátrico que teria precisado fazer desde a infância, que desorganizou toda a sua vida pessoal, afetiva e profissional até muito pouco tempo atrás, e você ainda descobre que foi diagnosticada de maneira inadequada pela segunda vez em dez anos. Tive hoje a confirmação do diagnóstico de Borderline, algo que estava camuflado com os sintomas fortes de um Transtorno Bipolar. E agora, o que acontece? Vamos recomeçar tudo do zero. Outra vez. É fácil dizer que problema todo mundo tem, quando não é você que dá um presente ao seu pai, com todo amor e carinho, e precisa vê-lo ficar nervoso porque você não deveria ter gastado dinheiro com aquilo, porque você sabe bem o que ele pensa sobre datas e exploração comercial, mas você está pouco se fodendo pra isso porque tudo o que você quer é agradar, é fazê-lo feliz de alguma forma, e deixá-lo um pouquinho orgulhoso de você nem que seja por cinco minutos na sua vida. Sim, me chame de Cal Trask, é muito mais apropriado. Leia Steinbeck e entenda o porquê. 


É fácil quando não foi você que, aos dez anos de idade, se machucou pela primeira vez logo depois de uma briga com o pai, arranhando as coxas até sangrarem, sentindo que era uma pessoa realmente má e merecia aquilo, e precisava externar de qualquer maneira toda aquela dor que antes era só interna. É fácil dizer isso tudo quando não é você que é tratado como um inimigo dentro da sua própria casa, e a dor chega a ser tão grande que você se tranca por vinte e quatro horas no seu quarto sem parar de chorar, pensando numa maneira de acabar com tudo logo de uma vez. Mas ainda que você chegue a considerar tudo isso seriamente, não é capaz de se trair e permitir-se tamanha fraqueza, falta de lucidez e de equilíbrio. É muito fácil, quando não é você que deita todas as noites e reza escondido antes de dormir, mesmo sendo agnóstica, pra ser levada enquanto dorme, porque não aguenta mais sentir dor na alma e no peito, e porque não quer ser fraca e trair seus princípios, seus valores e crenças, e acabar fazendo isso você mesma. You don't want to wear that fucking crown. E ainda assim, quando abre os olhos toda manhã, ainda que a primeira coisa que você sinta geralmente seja uma dor e uma angústia imensas, porque acordar muitas vezes dói, você ainda escolhe viver. Você tem força e coragem suficientes, sabe-se lá vindas de onde, para escolher a vida, todos os dias. E você ainda consegue sentir uma pontinha de orgulho de si mesma por causa disso. Por causa dessa imensa força que você descobriu dentro de você aos poucos, mesmo que num momento ou em outro você venha a duvidar dela. 


É fácil falar tudo isso quando não é você que ama sozinho. Sozinho. Quando os "amigos" te dão as costas por causa de uma impulsividade que não é culpa sua, mas de um desequilíbrio químico do seu corpo. E quando tenta seguir em frente se relacionando com uma outra pessoa que não seria a sua primeira escolha, mas mesmo a outra pessoa, e a outra, e a outra ainda, só sabem te machucar e te abandonar. Ainda que você sinta que existe dentro de você amor suficiente pro mundo inteiro. Pro mundo inteiro. Ainda que você não consiga evitar escolher e querer aquela mesma primeira pessoa, até que tudo se acabe. E depois. E depois. "We should meet in the air. you and me. We should meet in another life."  We should...


É tão fácil falar que os meus problemas não são nada comparados aos problemas de qualquer outro ser humano. É muito fácil minimizar tudo, até por que não é com você. E a gente erra tanto... tanto... mesmo que, desde criança, você só tenha tido as melhores intenções do mundo, e tenha ido muitas e muitas vezes em silêncio até a cama dos seus irmãozinhos depois que eles dormiam, só pra ver se eles estavam cobertos direitinho, e se estavam dormindo bem. Eu era essa criança. Eu ajeitava o cobertor em volta dos meus irmãos. Aos sete anos de idade. Hoje eu já não sei quem sou. Já não sei mais se sou uma boa pessoa. Porque insistem em me dizer o contrário dentro da minha própria casa. É fácil dizer tudo isso quando você vira uma espécie de inimigo da sua própria família, ainda que quando adolescente, sem ter dinheiro para dar presentes aos pais e aos irmãos, você tenha feito, por vários anos, lembrancinhas artesanais, trabalhos manuais, como um ursinho cor de rosa em miniatura que eu moldei, costurei e bordei pra minha irmã no aniversário dela, e do qual ela gostou tanto. E tudo vinha acompanhado com cartões manuais, com aquarelas que eu passava as tardes fazendo enquanto ouvia Marisa Monte, e com mensagens que eu adorava escrever. Sempre gostei tanto de escrever. Eu só queria fazer meus irmãos e meus pais felizes. Eu só queria fazer as pessoas felizes. Era tudo o que eu queria. Mas sempre, sempre acabava fazendo algo errado, de maneira que toda a minha vida eu fui a ovelha negra da minha família. A única que não tirava dez em todas as matérias. A única que não fazia tarefas da escola e da casa prontamente, quando era solicitada, quando tinha de ser. A única que levantava a voz, que não se resignava, que não se submetia ou abaixava a cabeça. A única que não se encaixava. A única que não era perfeita. A única que frustrava imensamente os pais, que desde muito pequenos sempre foram os primeiros alunos das classes deles, e não esperavam menos da vida do que filhos que no mínimo se comportassem da mesma maneira. 


É muito fácil dizer qualquer coisa quando não foram os seus sonhos todos que foram frustrados. Quando não foi você que não pôde estudar o ballet clássico que era o seu grande sonho, porque a situação financeira da sua família não permitia. Porque éramos cinco filhos, uma mãe professora de inglês e funcionária do estado, sensível escritora e poetisa, desenhista e artista, imensamente criativa e com uma inteligência brilhante e linda, e um pai engenheiro, funcionário médio da Usiminas, apesar de ter passado em primeiro lugar geral no concurso que a empresa promoveu assim que abriu as portas aos futuros empregados no Vale do Aço. Me diz agora de que foi que serviu aquele maldito primeiro lugar? Um pai igualmente brilhante, que dominava a matemática e a música, que foi professor de cálculo na faculdade, e que foi sempre o meu maior exemplo de ser humano, de honestidade, de dignidade, de respeito, de bom coração, de ética em tudo o que fazia e faz, de uma pontualidade invejável, de educação, de honra, sensibilidade, cordialidade e cavalheirismo, de tudo enfim. Meu grande espelho, meu grande mestre, meu grande centro. E hoje em dia ele é alguém com quem eu não consigo mais trocar sequer duas palavras. Um inimigo. Meu maior amor nessa vida, hoje um inimigo. E isso dói tanto. Dói pra caralho, ninguém é capaz sequer de imaginar. 


Éramos uma família extremamente simples, apesar de não nos ter faltado nada. Mas nunca pudemos ter bicicletas, nunca pude estudar o meu ballet, nunca podíamos viajar pra muito além dos limites de Minas nas férias, nunca pudemos usar aparelhos nos dentes porque eram muito caros pra nós, não tínhamos um carro, não frequentávamos os clubes da cidade, não fizemos cursos de línguas estrangeiras, até que minha mãe veio a dar aulas numa boa escola de línguas, e conseguimos então bolsas para terminar de estudar o inglês que ela já tinha começado a nos ensinar em casa, todas as tardes na mesa de jantar. Nossos maiores luxos foram um videogame e um computador pra família inteira usar. Até que aos poucos cada um pudesse comprar o seu.


O que hoje podemos dizer, com orgulho, que realmente tivemos, e que ninguém vai poder nos tirar, nunca, o que foi o centro de todo o investimento de nossos pais em nós, não foram viagens ao exterior ou intercâmbios, nem mesadas, nem poupanças em bancos, nem os melhores brinquedos da época, nem as últimas novidades da tecnologia: foi educação e cultura. Educação e cultura. A melhor educação que a nossa região oferecia, enquanto pudemos pagar por ela, e toda a boa cultura a que pudéssemos ter acesso. O melhor da cultura do Brasil e do mundo. Música, literatura, cinema, arte, exposições, enciclopédias enormes. Lembro que a gente se juntava na sala, a família toda, pra ver um filme, e via até o fim, até rolar o último crédito. Fosse por curiosidade em relação aos atores e a toda a equipe. Fosse por respeito. Fosse por amor ao cinema. Mas assistíamos até o último crédito rolar na tela. Felizes por termos tido juntos aquela experiência. E hoje, quando vamos ao cinema, somos obrigados a ser praticamente estuprados pelas luzes que se acendem com força antes mesmo da cena final, e pelas pessoas que se levantam, ficam em pé na nossa frente e quase nos tiram do lugar ao passar, sem procurar saber se o filme de fato terminou ali. Sem querer saber dos créditos e de todos os que colaboraram pra que aquele trabalho acontecesse. Sem querer saber se vai haver uma cena durante ou ao final dos créditos. E, olha só que engraçado, são as mesmas pessoas que incomodam fazendo "psssst" se alguém precisa comentar algo baixinho com o colega do lado, e os mesmos que chutam a sua cadeira (sim!!! já chegaram a fazer isso comigo!) se você por acaso precisa usar rapidamente o seu celular pra mandar uma mensagem urgente e importante. Logo comigo, eu que sou sempre a primeira a deixar o celular no silencioso em qualquer tipo de evento, e só dou uma olhada rápida mesmo se eu sei que existe uma emergência qualquer, se alguém ficou de enviar uma resposta importante, se tem alguém na família passando mal. Acontece. Acontece.


Sobre livros, gosto sempre de contar que, quando bem criança, logo antes de o ano letivo começar na escola, assim que nossos pais compravam os livros de português que seriam usados naquela série, eu corria, sem ao menos deixar as páginas esfriarem, e lia todos os textos que seriam estudados nas aulas de português e redação durante todo o ano. E fazia a parte de interpretação de texto, e alguns exercícios. E durante o ano eu dava um jeito de saber o que é que as outras turmas estavam lendo, e corria atrás, pegava os livros das outras turmas e séries, e lia também. Eu era esse tipo de criança. Sempre louca por leitura e por redação, sempre, sempre. Sonhava em ser escritora. E ainda sonho. Só adiei um pouquinho esse meu sonho. Mas chego lá. Em paralelo, lia toda a coleção Vagalume e os livros do Monteiro Lobato. Até descobrir livros mais adultos, primeiro Richard Bach, com seu Fernão Capelo Gaivota, aos onze anos de idade, depois os livros de Gabriel García Márquez, por quem me apaixonei perdidamente por volta dos treze, quatorze anos. E nunca mais parei, exceto durante as minhas longas crises de depressão, quando eu não tinha vontade de fazer nada, de ler nada. Sequer de sair da cama. 


Mas então a situação apertou ainda mais depois da separação dos meus pais, um dos motivos pelos quais eu nunca considerei a sério a possibilidade de me casar e viver dentro de um esquema familiar encaixotadinho, antiquado e falho. Devo muito dessa minha maneira de pensar também aos livros do maravilhoso Gaiarsa. De qualquer forma, foi uma fase muito difícil, que veio justamente quando os filhos estavam entrando na idade de fazer um curso superior. Na época não existia financiamento. A alternativa eram as federais, sempre extremamente concorridas. Tentamos, não conseguimos. Tentei duas vezes pra Artes na UFMG, um dos meus grandes sonhos. Só passava na prova de aptidão. Então veio o desânimo, não tinha como investir numa faculdade de uma outra forma. Até que meus dois irmãos mais novos completaram um cursinho, e estavam muito tristes por não poderem prestar um vestibular, por não ter como investir naquilo. Eu vi aquela tristeza deles, e fui conversar com meu pai. Era tudo tão angustiante, que a gente conseguiu dar um jeitinho, apertar aqui, apertar dali, e os dois foram estudar, em cursos baratos, que era o que o dinheiro dava pra pagar. Minha irmã, Turismo. Meu irmão, Ciências da Computação, a grande paixão dele. Tudo o que envolvia informática, montar, desmontar e consertar qualquer tipo de objeto, era com ele. Era a área dele. Minha irmã sempre sonhando com viagens, com a Grécia, com o mundo inteiro. E mais tarde ela veio realmente a ganhar esse mundo a bordo de um cruzeiro, a trabalho. Mas ganhou. Na medida em que uns iam se formando, era possível pagar estudo pros outros. Prestei novamente pra Artes na federal, passei outra vez só no teste de aptidão. Mas então passei pra Arquitetura e Urbanismo numa faculdade particular da minha região. Outro curso que eu sempre fui louca pra fazer, desde os meus quinze anos. E hoje é a minha escolha, a minha grande escolha pra vida. Minha irmã mais nova começou então Jornalismo, ficou decepcionada pela falta de organização do curso, trancou e começou Letras, refazendo os passos da minha mãe. 


Mas então veio aquele agosto de 2004. A reincidência do câncer da minha mãe. A metástase. Toda e qualquer esperança de cura desesperadoramente arruinada. A depressão profunda em que minha mãe caiu, ela que estava tão feliz com os aluninhos de sete anos na escola de inglês, e tinha completado cinquenta anos há pouco tempo, numa festa tão bonita, e ela estava tão linda, toda de vermelho... tudo evoluiu muito rápido, e ela veio a falecer no dia 31 de agosto de 2004, às sete horas da noite. Tudo mudou. Tudo. Minhas crises de depressão passaram a ser mais frequentes e mais fortes, enquanto, por outro lado, faltou a renda dela pra que a gente conseguisse terminar os estudos. Minha irmã conseguiu a muito custo se formar no fim daquele ano, em Turismo. Com honra. Apesar de toda dor. De todo aquele momento de fraqueza e de falta de chão. Uma verdadeira guerreira. Recebeu medalha de melhor aluna, foi oradora da turma. Minha mãe teria gostado tanto, tanto de ver tudo aquilo... já eu precisei trancar meu curso. E fiquei por anos entre idas e vindas, tentando finalizar a faculdade que eu escolhi pra minha vida. Mas dois fatores atrapalharam: o transtorno psiquiátrico mal diagnosticado e mal tratado, e a falta de condições financeiras pra investir no curso, uma vez que a renda da família caiu quase para a metade. Ainda que eu tentasse um financiamento, e por uma razão qualquer, não conseguisse. Minha irmã mais nova conseguiu terminar os estudos, o curso dela era muito mais em conta, e ela sempre foi bem equilibrada e muito focada nas coisas dela. E eu fui ficando, entre uma crise e outra. E até hoje não consegui me formar. Até hoje não consegui um emprego que fosse minimamente decente, até hoje não consegui me estabilizar, não consegui um apartamento, uma família, alguém que estivesse sempre do meu lado e que me amasse, filhos, um cachorro, samambaias, tuias, amoreiras e pitangueiras no quintal e essa merda toda, e uma linda glicínia bianca no jardim. Ainda que dentro da minha cabeça aquilo não incluísse necessariamente um casamento nos moldes tradicionais. Então, não consegui nada na minha vida. Nada. Ano após ano fui vendo meus amigos se formarem, começarem a trabalhar, crescerem na profissão, se casarem, terem filhos, viajarem para o exterior, e eu ali, completa e absurdamente estagnada, sem conseguir dar movimento à minha vida, sem conseguir progredir de maneira nenhuma, desesperada, morrendo aos poucos. Vítima de depressões horríveis. Pensamentos suicidas o tempo inteiro. Vítima de crises de ansiedade, fobias e pânico horríveis. Um pesadelo sem fim. Crises de dissociação, tricotilomania, que é uma forma um pouquinho mais branda de automutilação, mas é um sintoma claro da TPB, Transtorno de Personalidade Borderline. E outros episódios que quase aconteceram, mas sempre algo me interrompia e eu acabava não fazendo. Sempre. Agradeço ao anjo que me interrompia, que batia uma porta dentro da casa vazia, sem corrente de vento alguma. E eu acabava mudando de ideia. Agradeço muito. E durante esse tempo, eu não pude estudar, por um motivo ou por outro. Coisa que é na verdade o meu grande sonho: estudar, me formar, estar sempre em contato com o riquíssimo ambiente acadêmico, fazer quantas faculdades eu tivesse vontade, estudar e aprender o resto da vida. Mas, não. Nada disso aconteceu. Eu vi todo mundo progredir, e eu ficar para trás. Eu não tinha condições psicológicas ainda, e muito menos financeiras. Não tinha como investir na minha formação, no meu caminho, na minha vida, no meu progresso. Isso me matava. Me matava de dor na alma e no peito. Esse tipo de dor excruciante de alguém que está completamente aprisionado, e ainda assim completamente consciente da merda em que está atolado. O universo numa casca de noz. Obrigada, Stephen Hawking, por criar esse belíssimo título, essa expressão tão forte e tão dolorosa. 


Sabe, muitas vezes eu desejei ser burra, e me contentar com o arroz com feijão, com a cultura de gosto duvidoso, com o axé, com o funk, com o pagode e o sertanejo, com o Faustão, com o teatro de comédia forçada, absolutamente comercial e extremamente deteriorante, com o hábito lamentável de ver apenas o que está diante do nariz, com um namoro sem amor só pra não ficar sozinha, e com filhos aos quinze anos. Já quis tanto não ver além... já quis tanto não ter toda essa consciência estúpida, que só faz causar dor, e mais dor. Sabe, seria tudo tão mais fácil. Evitaria tanto, tanto sofrimento. Be dumb. but be rich. Sabe? Não o contrário. Nunca. É sofrimento demais. 


E é assim que eu tenho vivido, aprisionada pelas minhas próprias fraquezas físicas, ou químicas, e pela situação financeira lastimável. Eu nunca pude. Nunca pude. Mas vez ou outra eu escrevia monografias e trabalhos de final de graduação e pós graduação por encomenda, porque eu era inteligente, porque eu escrevia muito bem, por isso e aquilo, pelo caralho a quatro. Eu sempre estive lá, fazendo as coisas pelos outros, mas nunca tive a oportunidade de fazer a minha própria monografia, de ter a minha própria formação, a minha própria pós, meu próprio mestrado, e sabe-se lá onde eu seria capaz de chegar se pudesse investir em mim mesma. Sabe-se lá.


Então eu passei por tudo isso. Passei pelas piores coisas. Andei pelas sombras mais assustadoras do interior da minha mente. Andei pelos piores caminhos. Caminhei no inferno. Descalça. E nua. Muitas vezes achei que iria ficar louca, que não iria aguentar nem mais um minuto. Mas sobrevivi. Como uma porcaria duma fênix, que eu ainda vou tatuar em algum lugar do corpo, ainda não escolhi onde. Junto com uma serpente, meu signo chinês, tomando metade das costas, e rodeada de rosas. Vou. Vou fazer. Vou me dar esse presente. Sinto que ao menos isso eu mereço. 


Descobri minha força. Descobri em mim uma força gigantesca. Que está aqui dentro, agora eu sei, e não vai mais me abandonar. Muitas vezes eu me perguntei se deveria realmente ter filhos, e permitir que eles pudessem vir a passar por todo esse pesadelo também. Ter filhos sempre foi um grande sonho pra mim. Amo, amo crianças. Quero muito. E vou ter. E então eu cheguei à seguinte conclusão: ora, se eu fui capaz de passar por tudo isso, por todo esse desequilíbrio, por todo esse pesadelo, se eu fui capaz de chegar ao fundo do poço e retornar, ao inferno e voltar, e superar tudo, tudo, e voltar ainda mais forte, então eles também haveriam de ser capazes de vencer essa batalha. De descobrirem a própria força, e o próprio equilíbrio, da mesma maneira como tenho descoberto o meu. Apesar de toda a impulsividade que ainda me domina. Eles podem até ter no sangue toda essa carga genética negativa. Mas eles também terão a cura. Eles também saberão encontrar o seu caminho, a sua força, e o seu equilíbrio.


Sabe, eu precisava dizer tudo isso, desabafar, me desintoxicar, Mesmo que ninguém se importe. I don't mind if you don't give a shit. Preciso colocar isso tudo pra fora, ou vou me envenenar aos poucos, até que não haja mais volta. E eu não quero isso. Eu quero a vida. Eu quero o progresso. Eu quero o futuro. Eu quero tanta coisa boa na minha vida, e na vida de todo mundo que me cerca... Sou coração. Sou tempestade. Sou caos, beleza e confusão. E estou perdida. E preciso tanto de ajuda. Preciso tanto de um amigo. De alguém que simplesmente me ouça, e me dê forças, seja de que maneira for...


Sabe, estes são os meus problemas. Não poso sentir por mais ninguém, não posso passar, no lugar de mais ninguém, pelos problemas que os outros passam. Estes são os meus problemas, é a minha luta pessoal. E esses problemas são tão esmagadores... E doem. Pra caralho. Uma dor que chega às vezes a ser excruciante. 


Não, não é bonito e nem romântico ser alguém extremamente intenso. Com exceção, talvez, de personagens da literatura. Não é romântico e bonito ser bipolar, ou borderline. Não é. Então, por favor, tenha a bondade, a fineza, a delicadeza, a sensibilidade de não minimizar os meus problemas. E peço ainda outro favor: valorizem o conforto e as condições privilegiadas de vocês. Valorizem o dinheiro do papai e da mamãe. Enquanto for possível. Não desperdicem oportunidades. Façam essa merda toda valer a pena. Porque vocês podem.


Como diria um amigo imensamente querido: Vita Brevis. Tempus fugit. Carpe diem.


Estou tão cansada... tão cansada... é tanta dor... sinto que não consigo aguentar mais... Estou no meu limite. And I don't ever want to wear that stupid crown.


Eu preciso que me digam que existe uma saída.


Na verdade eu vejo sinais indicando as saídas. Vejo muitos, muitos deles. Eu poderia seguir qualquer um, e estaria salva. Mas sozinha não faz sentido. Sozinha nada faz sentido. E eu não quero mais.





P.S.: Agora, pra terminar, juro, só um adendo a quem por algum acaso tenha tido a paciência de Jó de ler todo esse meu texto imenso... rs. Uma coisa eu quero deixar bem clara: eu não quis dizer que os meus problemas são maiores do que os dos outros, não quis minimizar os problemas de ninguém, de maneira nenhuma. Essa não foi a minha intenção. E se tem algo que eu faço sempre, sempre, é procurar me colocar no lugar dos outros, procurar compreender e sentir um pouco a dor dos outros. A única coisa que eu não quero é que minimizem os meus próprios problemas, sabe? Tanto que no fim do texto eu coloquei assim:


(...) estes são os meus problemas. Não poso sentir por mais ninguém, não posso passar, no lugar de mais ninguém, pelos problemas que os outros passam. Estes são os meus problemas, é a minha luta pessoal. E esses problemas são tão esmagadores... E doem. Pra caralho. Uma dor que chega às vezes a ser excruciante. (...) Então, por favor, tenham a bondade, a fineza, a delicadeza, a sensibilidade de não minimizar os meus problemas.


Claro que existem por aí problemas inimaginavelmente piores e milhares de vezes mais cruéis do que os meus. Mas esses são os MEUS, e eu só gostaria que os respeitassem, e que não os minimizassem.


Essa música aqui eu costumava ouvir muito durante a minha última depressão, há pouco mais de dois anos atrás. Era só o que eu tinha ânimo pra fazer: ver toda a videoteca do meu pai cinéfilo, e ouvir músicas deprimidas, ou não ouvir nada, de jeito nenhum. Porque mais triste do que se sentir triste e procurar ouvir músicas tristes, é não ter vontade de ouvir música nenhuma. Aí, amigo, pode ter certeza de que a sua depressão não é das leves, não. Essa eu ouvia às vezes, de madrugada, enquanto fazia no paint desenhos especulando as maneiras com as quais eu poderia me matar... era o que eu ouvia... era o que eu desenhava... era tudo o que eu tinha vontade de fazer. Esses dias, tenho lembrado muito dessa música.... the monster lurks...

Rebekka Karijord, Wear It Like A Crown

"I don't know where this fear comes from,
How I became so afraid of losing everyone,
Never been afraid of being lonely,
Now I'm becoming the one I'm most scared of being.
I don't know where this fear comes from,
This fear of failing fear of letting everyone, and myself down,
It's growing deep into my soul,
Making me all paralyzed and cold.
It's two steps forward, three steps back again,
I'll turn my face against it, I wont run,
'Cause courage and belief are my redeems,
No one else can rescue me it seems.
'Cause if I don't follow my heart this time,
I'm gonna forget what this life is all about,
I'm gonna take that path, I'm going in on my own,
I'm gonna take that fear and wear it like a crown."





sábado, 21 de março de 2015

De poços, de fundos e de trampolins

"A gente morre um pouco em cada poço."
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Deixo aqui este pequeno texto de Caio Fernando Abreu. Pela mensagem de força e de fé. Por cada poço em que tenho resvalado, ou nos quais tenho, conscientemente, me atirado. Certa da queda, do estilhaço, da dor dilacerante. Mas também pela certeza da força que carregamos. Pela possibilidade do reerguer-se. Pelo próximo passo, o primeiro de tantos outros. Pelo caminho que, sinto, ainda e sempre, seguirá. Pelo movimento incessante, que aprendi a observar nos astros. Pelo aprender, sempre. Pelo crescimento que nos aguarda ali na esquina. Pela leveza que um dia haveremos de encontrar, e que no fim, também o sinto, só será verdadeira e plena quando, com grande dificuldade e dor, como em qualquer parto, surgir da aridez e do peso pelos quais sei que devemos passar. Sempre. E sempre. Até que.
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"Nos poços
Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê."
Caio Fernando Abreu, O Ovo Apunhalado

sexta-feira, 20 de março de 2015

Trânsito

"Ai, Ricardito, essas breguices que você me diz."
(Mario Vargas Llosa, Travessuras da Menina Má)

Hoje eu me apaixonei.

Atravessava, com passos rápidos, de quem sabe bem onde quer chegar, a extensão do Parque Municipal Américo Renné Giannetti. Ele passou por mim, também apressado. Alto, bonito, charmoso, barba bem cuidada, bem vestido. Usava um terno. Sempre fui louca por homens bem vestidos, ou usando um bom terno. Então, nossos olhos se encontraram. E não se largaram. Por longos segundos, como se um estivesse reconhecendo o outro. De outro lugar, de outro tempo, quem saberia dizer. E importa? Nos olhamos, sérios num primeiro momento. Que olhos. Então, quase sem perceber, me desarmei e me abri num sorriso, meio encantada, meio envergonhada. Ele sorriu de volta. Um sorriso aberto, desses que se refletem nos olhos, e convidam. Sorri uma vez mais, e senti que o fazia com um certo brilho nos olhos, com sinceridade plena, com uma entrega própria daqueles que reencontram algo de valor inestimável, há tempos perdido. Continuamos a sorrir e a nos olhar, completamente alheios a qualquer outro tipo de trânsito. Até que um passou pelo outro. O trânsito despertou, seguiu. Abaixei a cabeça, e ri sozinha, pela delícia daquele momento, daquele encontro que nenhum dos dois previu. Então, me virei para vê-lo uma última vez. Não queria deixá-lo ir embora. E vi que ele tinha se virado, e também me olhava de volta, sorriso aberto e convidativo. Sorri outra vez, com a boca, com os olhos, com a alma, com o corpo inteiro. Não sei quanto tempo durou. Não sei por que não parei, por que ele não parou, por que não nos aproximamos e nos abordamos. A chance se foi. Mas por um minuto eu fui dele. Por um minuto ele foi meu. Por um minuto, o resto do mundo parou. Por um minuto, tudo fez sentido.

* Texto escrito em 10 de março de 2015.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

O sentido da vida, do universo e de tudo mais

Perdoem a sutil referência a Douglas Adams. Risos. A intenção não é indicar um de seus livros, mas um texto muito interessante que acabei de ler. Abri o link (no fim da postagem) meio sem vontade, quase certa de que veria um texto mediano qualquer, infestado por lugares comuns, ideias superficiais fazendo cara de profundas e frases pretensiosas querendo nos dar a direção certa na vida. Que bom que estava errada. O texto de Victor Lisboa é um dos melhores que li nos últimos tempos. As referências a trabalhos de Thomas Ligotti, Albert Camus, Becker e Jung me surpreenderam, além das referências interessantes a True Detective e a Irmãos Karamazov, que quero muito ver/ler. As ideias que esse texto nos apresenta nos tiram o conforto e a paz, fazem refletir. Uma reflexão cruel, de fato, mas muito interessante e, eu diria, necessária. E Victor finaliza lindamente, colocando seu próprio senso crítico a favor do tema e de todas as questões levantadas, expondo uma concepção de existência, sentido e evolução com a qual eu me identifico profundamente. Indico muito esse texto a todos os amigos e leitores corajosos, dispostos a se arriscarem em direção a linhas de pensamento que não são usuais, dispostos a questionarem sua própria visão de mundo, ainda que se mantenham firmes em seus conceitos. Coisa de que eu duvido um pouco. Afinal, “a mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original."

Quanto às ideias dos ditos filósofos pessimistas e quanto à perspectiva de que nossa consciência pretensamente superdesenvolvida seria um erro da natureza, levanto algumas questões. Quem é que garante, por exemplo, que aquilo que eventualmente consideramos uma anomalia não seria de fato a regra, ou algo inerente a ela e à sua evolução? O quanto realmente conhecemos de nosso próprio universo para afirmar com certeza qualquer coisa a respeito de anomalias, especialmente em relação ao reino do abstrato? Em relação a um amplo, irrestrito uso das palavras “ilusão” e “realidade” ao longo do texto, levanto ainda outras questões. Qual é a medida do real? Em que realidade esse grupo de filósofos se baseia para desenvolver seus questionamentos e suas teorias? Quem é que, em todo o mundo conhecido, seria capaz de efetivamente definir a palavra “realidade”? Quem pode dizer o ponto exato em que saímos dos limites da ilusão dos sentidos e entramos numa pálida e imperfeita concepção de realidade? Será que existe mesmo uma separação?

Alguns trechos muito interessantes do texto de Victor:

“(...) o problema não é a verdade que não conseguimos ver, por estarmos distraídos graças a um sistema social produtor de ilusões coletivas. O embaraço está no fato de que nossos antepassados decidiram, equivocadamente (e precisamos respeitar o medo que motivou esse erro), lidar com essa verdade simplesmente por meio da sua negação, da cegueira, e assim construíram uma sociedade cujos valores e alicerces estão baseados na ilusão.”

“Pior ainda, sabemos que não há apenas uma criança. Sabemos que incontáveis crianças foram e são agredidas, abusadas, violentadas e submetidas às mais diversas formas de injustiças e violências desde que o mundo é mundo. Não é nem preciso ser versado em história da humanidade. Basta abrir o jornal para ver que se trata de um coral sinistro de prantos e gritos infantis, ecoando pelo breve tempo em que o universo, silencioso e gracioso com suas rochas planetárias e bolas de gases incandescentes, testemunha a insignificante presença humana.”

E ainda:

“(...) E o ego é aquela parte de nós que, desenvolvendo-se a partir do instinto de sobrevivência animal, fala sempre ‘eu, eu, eu, eu eu’. É aquela parte  em nós que mede todas as coisas do mundo segundo si próprio, que alimenta continuamente a ilusão sobre sua auto-importância, e que facilmente abraça a ideia de que se é alguém especial, um ser único, possivelmente eterno.”

Cabe aqui uma breve defesa do ego. Risos. Vamos perdoar e pegar leve com o ego, essa ferramenta tão necessária à nossa evolução! Afinal, só somos capazes de perceber, processar, interpretar e reagir à vida através de um único ponto de observação, através de um único receptáculo, o único que nos foi dado: nosso próprio ser. Não é fácil transcendê-lo e procurar compreender verdadeiramente todos os demais pontos, elaborando a partir daí todo um sentido para esse conjunto. Nesse sentido, somos todos guerreiros. E estamos no caminho. Se é o caminho certo ou não, espero que um dia venhamos a saber.

E já que citaram Shakespeare em função dessa visão de que “a vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, nada significando”, gostaria de rebater utilizando uma outra frase, do próprio Shakespeare, de que sempre gostei muito:

“Há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia.”




Texto de Victor Lisboa ("A vida tem sentido?") aqui.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Sobre a escolha da arte como o caminho que nos dá sentido

Estava conversando com a Amanda, minha ex-aluna de dança e hoje escritora e estudante de Letras, sobre as dificuldades implícitas na escolha da arte como o caminho que nos dá sentido, aquele pelo qual vale a pena seguir lutando e vivendo. Confesso que, há exatamente um ano e meio, eu abdiquei de uma escolha que tinha feito há quatorze anos atrás: a de ser professora de dança. Decidi nunca mais voltar a dar aulas outra vez. Não de dança. Mas isso envolveu muitas outras questões, todas elas muito complexas, muito pessoais e muito práticas. Questões delicadas de saúde envolvidas. Criei um atalho, adaptei esse meu caminho, sim, abracei com muita coragem essa minha capacidade de mudar tudo, de ser capaz de virar tudo do avesso aos trinta e sete anos de idade, e de seguir acreditando, firme. A dança sempre vai estar na minha vida. A arte, em todas as suas formas e expressões, sempre vai estar na minha vida, entrelaçada com a minha maneira de ser, como se fôssemos, na verdade, uma coisa só. Isso é muito forte na minha vida, e preciso respeitar isso. Preciso, sobretudo, respeitar a mim mesma, a minha maneira de ser e de me expressar nesse mundo.

Estávamos, eu e Amanda, conversando sobre literatura, e sobre a dificuldade que é seguir esse caminho, e se divulgar, e conquistar algum tipo de reconhecimento. Conversamos coisas que eu não gostaria de manter só pra nós duas, então disponibilizo aqui pra quem quer que possa demonstrar interesse no assunto. Eu disse a ela, então, o que todo mundo que está nesse meio sabe muito bem: é sempre assim. É uma luta, mesmo. Uma batalha de verdade. Mas sempre vai valer a pena se você acredita no caminho que você escolheu. Antes de mais nada, a gente escreve pra se expressar, é uma maneira de viver, ou até mesmo de sobreviver nesse mundo difícil. Estava conversando sobre isso mesmo, alguns dias atrás, com um amigo querido, o Julian Gallo, um escritor americano que também passa por problemas até hoje, mas que encontrou o caminho dele, e já tem o público fiel dele. Um dos tópicos que nós discutimos foi reconhecimento e publicação do nosso trabalho. Ele disse mais ou menos o seguinte, e concordei muito: 

"Escritores escrevem, não importa o que aconteça. Coloca-se muito valor no ato de publicar uma obra, como se fosse uma espécie de 'validação' do nosso trabalho, e para mim não é isso o que realmente 'valida' o trabalho de alguém. O que valida é o próprio ato de escrever, de concluir o que você começa, e de fazê-lo porque você sente que você precisa. Como um pintor ou um músico. Eu sempre argumentei que, se um pintor pinta, mas nunca expõe seu trabalho, ele vai deixar de ser um pintor por causa disso? Se um músico toca só para ele mesmo, ele não é ainda um músico? É difícil se manter atento a esse ponto de vista no mundo de hoje, porque estamos influenciados demais pelo vírus da 'celebridade'. É uma pena / vergonha também, porque existe um monte de gente aí fora que já é exatamente aquilo que aspira ser, e não se dá conta."

Somos escritores, somos artistas, quer estejamos sendo, no momento, muito lidos, vistos, apreciados e valorizados, ou não. É o caminho que a gente escolheu, é ele que dá sentido à nossa vida e é nele que vamos continuar. Não se escolhe ser artista. Nasce-se artista. É impossível abdicar disso. Ontem mesmo estávamos conversando sobre algo parecido no encontro com a Cristina Machado, diretora da Cia. de Dança Palácio das Artes, aqui no Centro Cultural Usiminas, em Ipatinga. Digo que é parecido, porque no meio artístico isso é algo generalizado, afeta tanto quem trabalha com dança quanto com teatro, música, pintura, literatura e artes visuais em geral. O querido Wenderson Godoi 
pontuou algo muito interessante que ela disse, sobre se apresentar para um público muito pequeno, muito restrito. Sobre artistas que se apresentam para dez pessoas, ou até para uma pessoa só. E nem por isso desistem de seguir trabalhando, desenvolvendo sua arte e levando-a ao conhecimento de quem estiver interessado. O que importa é estar no caminho que você escolheu, o seu caminho, aquele que faz sentido pra você. A gente, quando entra nesse meio artístico e literário, precisa ter em vista que não vai ficar rico com isso, a menos que descubra a fórmula da popularidade, do que dá certo, tem ampla aceitação e vende feito, sei lá, pão com linguiça no mercado, ou o Big Mac. Não é nada fácil, e nunca foi mesmo, e provavelmente nunca vai ser. O que importa mesmo é a gente ter certeza do caminho que a gente escolheu, do que apaixona e move a gente. 

Então a Amanda me contou sobre o caso de uma moça que nunca se expõe ao público e à crítica, não publica absolutamente nada por medo de ser criticada, por medo de não gostarem do trabalho dela. E me contou também sobre um outro rapaz que deleta tudo o que recebe críticas negativas no blog que ele usa pra divulgar o trabalho dele, e deixa só o que recebe mais comentários e críticas positivas. Mas o que é isso? Afinal, quem é, sempre, cem por cento bom, perfeito? Ninguém. A gente tem que dar mesmo a cara a tapa pro bem ou pro mal, e ser verdadeiro e honesto em relação ao trabalho da gente, e a tudo o que a gente é.

A gente precisa é ser capaz de sustentar o que a gente é, as escolhas da gente, os atos da gente. E a consequência deles. Seja uma palavra, uma reação, um gesto, um elogio ou crítica, uma curtida no Facebook, um comentário menos elaborado, um mais elaborado, uma mensagem, um "vai tomar no cu" ou uma declaração de amor. Pelo amor de Deus, gente, por tudo aquilo em que vocês mais acreditam nessa vida, sustentem as ações de vocês, as escolhas de vocês, as opiniões de vocês, tudo o que representa vocês nesse mundo! Risos.



Raramente a gente recebe algum "eco" de verdade sobre as coisas que mais interessam e dão significado à gente, e essa inclusive é a razão daquela minha imagem de capa no Facebook, "no echoes". Porque o caminho que a gente escolhe pra gente mesma, aliado a tudo o que a gente é, e a todas as experiências que compõem o aprendizado da gente, é um caminho verdadeiramente solitário. Extremamente solitário. Ninguém mais pode trilhar pela gente, e ninguém vai compreendê-lo da maneira que a gente compreende. Mas, se a gente conseguir se fazer entender ao menos um pouquinho, se conseguir ao menos aquela nossa dúzia de seguidores e admiradores, já vai estar sendo um lucro imenso. Imagine, então, se tivermos a imensa sorte de sermos descobertos, e divulgados, e amplamente valorizados, e publicados e consumidos feito um Paulo Coelho da vida? Risos. Que seja o que tiver que ser, continuaremos firmes aqui!

terça-feira, 15 de julho de 2014

Matéria escura e a dança cósmica

“A gravidade da Terra é bastante forte para atrair de volta uma pedra atirada para o céu, mas não um foguete com velocidade de escape. E assim acontece com o universo: se ele contém uma grande quantidade de matéria,a gravidade exercida por toda essa matéria vai diminuir e deter a expansão. Um universo em expansão será convertido num universo em colapso. E se não há bastante matéria, a expansão vai continuar para sempre. O presente inventário de matéria no universo é insuficiente para diminuir a expansão, mas há razões para pensar que talvez exista uma grande quantidade de matéria escura que não trai a sua existência emitindo luz, para a conveniência dos astrônomos. Se o universo em expansão se revelar apenas temporário, sendo finalmente substituído por um universo em contração, isso certamente criará a possibilidade de que o universo passa por um número infinito de expansões e contrações, sendo infinitamente antigo. Um universo infinitamente antigo não tem necessidade de ser criado.Sempre esteve ali. Por outro lado, se não há matéria suficiente para reverter a expansão, isso seria coerente com um universo criado do nada.” _  Bilhões e Bilhões, Carl Sagan

Já tinha lido, há bastante tempo atrás, algo sobre matéria escura e sobre a força gravitacional que ela exerceria sobre a matéria visível,e achei muito interessante e muito pertinente. Sempre achei muito mais fácil conceber um universo que está num processo constante de expansão e contração,algo que sempre esteve ali, em criação e destruição constantes. Algo como a dança cósmica de Shiva, divindade que sempre me interessou e atraiu muito. Não sei por que esse tipo de concepção de universo parece-me muito mais natural.

Certa vez grifei uma passagem especial logo no início do livro O Tao da Física, do físico teórico e escritor Fritjof Capra:

“Eu estava sentado na praia, ao cair de uma tarde de verão, e observava o movimento das ondas, sentindo ao mesmo tempo o ritmo de minha própria respiração. Nesse momento, subitamente, apercebi-me intensamente do ambiente que me cercava: este se me afigurava como se participasse de uma gigantesca dança cósmica. Como físico, eu sabia que a areia, as rochas, a água e o ar a meu redor eram feitos de moléculas e átomos em vibração e que tais moléculas e átomos, por seu turno, consistiam em partículas que interagiam entre si através da criação e destruição de outras partículas. (...) Tudo isso me era familiar em razão de minha pesquisa em Física de alta energia; até aquele momento, porém, tudo isso me chegara apenas através de gráficos,diagramas e teorias matemáticas. Sentado na praia, senti que minhas experiências anteriores adquiriam vida. Assim, ‘vi’ cascatas de energia cósmica, provenientes do espaço exterior, cascatas nas quais, em pulsações rítmicas,partículas eram criadas e destruídas.”



Não sei como andam os últimos estudos e as últimas descobertas em relação à matéria escura e à origem do universo, mas gostaria muito de saber que eles apontam nessa direção. Não é uma teoria, literalmente, muito mais massa do que a noção de que o universo não tem matéria suficiente para uma provável contração, e que, portanto, teria sido criado do mais perfeito nada? Risos.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Regresso sem nome


 

Eu bem queria aquela volta, por cima. Uma que tivesse um nome. Uma que estampasse essa nova fase, esse retorno à vida. Esse querer tudo ao mesmo tempo. Esse acreditar que tudo ao mesmo tempo é possível.

Queria promessas. Queria certezas. Queria a estrada de tijolos amarelos da Dorothy. Mas é que a minha estrada, a minha história, é bonita, e é feia. E é dúvida. E é dor.

Hoje a madrugada foi de insônia, e dor. Pensei em estrear o novo blog com um texto antigo, que me parece ainda agora tão atual, tão real. Tão em sintonia com o que vivo agora. "Restos", o título. Mas descobri que, da lembrança, dos registros, só mesmo o título restou. E eu que pensava ter sido sempre tão cuidadosa, guardando tudo o que escrevia em documentos do Word. Enfim, passeando pelos arquivos, encontrei um outro, mesma pegada, mesmo feeling. E colo aqui, na íntegra.

Fica essa sensação constante de que é comprovadamente impossível preencher a mim mesma com as peças que faltam. Do tamanho exato. Da maneira exata. E, portanto, a solução tem sido, ano a ano, dia a dia, tentar remendar as peças que sobram. Tentar ir encaixando os restos que me são atirados. Aquele Tetris meia-boca. Só para não ter que sentir o gosto amargo, a sensação dilacerante do mais puro vazio.

É assim que retorno ao mundo dos blogs. Um regresso sem nome. Um título no qual não consegui pensar. Mas, apesar de tudo, retornar é sempre bom. No fundo, é mesmo verdade. "There's no place like home."


Foi por isso que nunca te amei

Para E. S.
22 de Setembro de 2008

Olho o papel branco sobre o envelope, giro a caneta entre os dedos, mordo-lhe a tampa. Ah, os começos.

Sei exatamente o que quero te dizer. Mas o branco da folha insiste em me abduzir, hipnotizar, arrancar do baralho de sentimentos sem nome que dançam, debochados, aqui dentro. Começo, paro, olho as primeiras linhas, e as odeio. Odeio começos. E sei o porquê: todo começo traz, implícito, um fim. Finais são uns filhos da puta. Pode ser a mais bela das histórias, o mais belo dos finais. Mas é final. Se houver uma resposta tua, também ela vai ter um final. Odeio tudo o que é volátil, impermanente, tudo o que está desgraçadamente acorrentado às leis da física. O grande sonho do meu avô era inventar uma máquina que, uma vez posta a funcionar, não viesse mais a parar, nunca. Um moto-contínuo. Meu grande sonho é abolir todos os finais. Histórias, sensações, horas deveriam poder ser vividas e revividas outra vez, outra vez, outra vez…

É que ninguém me toma assim, com tamanho ímpeto, aperta contra a parede, devora com seus beijos, com seu sexo, puxa meus cabelos, bagunça meus sentidos, marca minha pele, rouba meu fôlego e meu juízo e sai então, satisfeito, andando sem olhar para trás. E o pior: sem coragem de dizer adeus.

Sabes, já tinha visto tuas costas antes. Antes mesmo de te conhecer. Vi nas tuas palavras. E depois, ouvi na tua voz. Li nos teus olhos, no teu jeito de sorrir, de falar, de calar e de me ouvir. Senti no teu corpo, na tua pressa de me possuir. No teu jeito desesperado de tentar se livrar do gosto de outra mulher procurando sentir o meu. Mas já não sentias nada. Já estavas irremediavelmente envenenado, possuído por inteiro, por dentro e por fora, e eu vi.

Ah, sim, eu soube do fim antes de tudo começar. Soube naquela madrugada, naquele aeroporto frio, enquanto procurava dominar minha impaciência, meu sono atrasado, minha febre de trinta e nove graus. E ali mesmo já procurava arrancar de mim o inexplicável carinho que sentia por tudo o que vinha de ti, o desejo de te abraçar forte e a ilusão de que eu talvez conseguisse te prender naquele longo e silencioso abraço. Naquele abraço forte, que foi a única coisa que pedi que fizesses quando nos víssemos pela primeira vez. E não me negaste.

Enfim, arranquei tudo de dentro de mim naquela rodoviária, te expulsei daqui de dentro junto com as lágrimas que, fraca, deixei cair naquele chão imundo, como um filho indesejado que é violentamente extirpado de um ventre e atirado numa lixeira qualquer.

Foi por isso que nunca te amei. Nunca te amei porque te matei assim que nossos corpos se separaram. Como uma Viúva-negra que mata e devora o macho assim que termina a cópula. Arranquei-te de mim antes que crescesses. Antes que me tomasses a alma. E o peito.

Arranquei? Se queres saber, ainda vejo teus olhos, ainda sinto teus dedos na minha sobrancelha, ainda lembro da tua voz, sussurrada, quando disseste meu nome pela primeira vez. Ainda sinto teu cheiro, teu gosto, tudo. Sabes, bastava que tivesses aberto uma passagem, a menor delas. Eu faria dela uma porta, e entraria por ela. Mas não fiz. Não entrei. Eu nunca, nunca te amei.

Tiro a caneta do papel, examino a caligrafia impaciente, cansada, e vejo nela mais dor do que deveria haver. A dor do que nunca houve. A pior das dores.

Nossa história, como esquecer?, começou ao som de Chico, que nós dois ouvíamos tanto naqueles dias. Era cada um no seu lugar, uma música em comum e aquela vontade de estar junto.

“Quero ficar no teu corpo
Feito tatuagem”

Então houve aquela música que ouvimos juntos, dividindo o fone de ouvido no meio de um beijo. Era uma composição de um amigo teu. Lady Jane, como naquela canção dos Rolling Stones.

E foi na voz de Nina Simone que nossa história terminou. Num disco emprestado por meu pai. Naquela letra que, sem que ele desconfiasse, muito menos tu, dizia exatamente o que eu estava sentindo. 

“For all we know
We may never meet again”

Essa eu ouvi sozinha. Largada na cama. E nela fiquei por dias. E tu nunca, nunca soubeste.

E a previsão estava certa. Nunca mais nos vimos.

Foi por tudo isso, E. Pelo que vivemos, e pelo que deixamos de viver. 

Foi por tudo isso 
que eu nunca te amei.