quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Sobre mercúrio e conexões

Aos vinte anos eu já falava com parceiros e namorados sobre essa "conexão verdadeira" que eu sonhava tanto ter com o outro. Uma ligação genuína, realmente entregue, que fizesse sentido, que fizesse tudo valer a pena. Uma ligação profunda, sem medos e sem amarras. E me lembro de alguns deles me perguntando: mas o que é afinal essa "conexão" que você espera ter com alguém? Eles não sabiam. Talvez não se importassem. Talvez nunca tivessem pensado a respeito. Mas para mim aquilo tinha que valer. Tinha que ser entrega de verdade. Uma ligação qualquer que não se desfizesse por completo daí a dois meses. Daí a duas semanas. Mas a gente cresce, amadurece, e começa a ver as coisas com mais clareza. E entende que a gente é absolutamente prescindível. Desgraçadamente prescindível. Toda vez que você acredita na possibilidade dessa conexão, toda vez que você começa a acreditar, ela se desfaz no ar, escorrega por entre os seus dedos. Como quando você era pequeno, adoecia e sua mãe vinha medir a sua febre com aquele termômetro de mercúrio, e você levantava para ir ao banheiro, se descuidava e deixava o termômetro cair dentro da pia e quebrar, e aquela coisa prateada serpenteava e descia pelo ralo com tanta rapidez que você ficava perplexo por um ou dois minutos, procurando entender como aquilo tinha acontecido. E como tinha acontecido tão rápido. Você não sabia se lamentava ou se ficava surpreso, ou se preparava uma desculpa para explicar o desastre. A maior parte dos relacionamentos, especialmente os de hoje, fatalmente os de amanhã, é como o mercúrio. Apenas lampejos. Vislumbres do que poderia ter sido. E nunca foi.

Você não é imprescindível. Você não é especial. E você enfim entende que as pessoas sempre estiveram, estão e estarão cada vez mais preocupadas em estabelecer laços, sim: consigo mesmas. A ter responsabilidades dentro de um relacionamento. Consigo mesmas. A se abrirem de verdade. Para dentro de si mesmas. E a se fecharem lamentavelmente para o outro, para o mundo do outro. Para a descoberta do outro. Para as tentativas algo persistentes. Para a possibilidade dos erros, mas também dos acertos. Os relacionamentos de hoje, perdoem a amargura de alguém que jamais teve sorte, existem, sim, em um grau bastante profundo. Com nossos celulares. Com o notebook, o tablet, o ipad, o Mac. Que a conexão esteja rápida. Que eu consiga postar a minha foto do pôr do sol antes que ele se ponha. Que a pessoa do lado não atrapalhe a foto. Que a conversa seja breve, e que quase nada signifique. Que os sorrisos e os olhos nos olhos sejam escassos, porque, olha só, eu não tenho muito tempo. "E o amor, o que é?" "Filha, essa você vai ter que pesquisar no google, porque a mamãe já se esqueceu." "E conexão, mamãe?" "Conexão? Essa a mamãe sabe. Isso é o que eu pago caro todo mês que é pra você poder usar o google e parar de me fazer tanta pergunta." É verdade. Eu deveria ter adivinhado aos vinte anos. Conexão acabaria por ser tudo o que não iria me faltar. Mas só se não faltar luz. E se as contas estiverem pagas.

And so it goes

Meu mais novo grupo favorito..
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Unforgiven

So I dub the unforgiven.

Essa foi a primeira música que eu coreografei na vida. Eu tinha dezessete.

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Sonhos

Esta noite eu tive um sonho tão bonito.
Sonhei que toda cura era possível
Que minha essência não era veneno
E que a vida não era caos.
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Sylvia

"Kiss me, and you will see how important I am."
― Sylvia Plath

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Cum Laude

"Cada um sabe a dor e a delícia
de ser o que é."

Na maioria dos estados da América do Norte e em algumas instituições do Brasil a expressão em latim "Cum Laude" é usada para destacar e reconhecer, no ato de sua formatura, estudantes que alcançaram excelente nível durante seu desenvolvimento acadêmico. É o equivalente a dizer que certa pessoa se formou com honra, com merecimento. Da maneira como três de meus irmãos se formaram, cada um em sua área. Pois bem, vamos falar um pouco sobre merecimento.

Corre por aí um certo pensamento, não de todo equivocado, que afirma sermos merecedores de tudo aquilo que nos acontece de bom ou de mau. O que existe de melhor nesse tipo de pensamento, na minha opinião, é tirar a responsabilidade por nossas conquistas e nossa felicidade das mãos de uma providência divina qualquer, e devolver ao homem o poder de, ele mesmo, batalhar e alcançar bons resultados através de seu próprio esforço e merecimento. Até aí, excelente. Outra coisa que acabo inevitavelmente considerando nesse cenário, uma vez que fui espírita kardecista por mais de dez anos e, apesar de me declarar hoje agnóstica, mantenho grande parte dessa doutrina como base dos meus pensamentos, ações e motivações, é o que poderíamos chamar, para facilitar, de “karma”. A Doutrina Espírita tem como base a evolução pessoal e social, e a responsabilidade que cada um tem por si mesmo e por seu próprio desenvolvimento em todo esse processo. Além de estimular, sempre e fortemente, o auxílio no desenvolvimento de outras pessoas. Aqui também existe a noção de que, para toda ação, existe uma reação correspondente. Tudo o que se faz de bom ou de ruim acarreta, aqui mesmo ou em uma possível vida futura, suas devidas consequências. Acredito muito nisso, especialmente no que tange à vida que estamos vivendo agora, neste exato minuto.

Acontece que nem tudo está fatalmente, e facilmente, atrelado à nossa vontade, ou à força de nosso trabalho. O que dizer das pessoas com alguma doença terminal, e que sempre levaram uma vida correta, ética, justa e bonita, como minha mãe levou até o final? Alguém vai me dizer que o câncer foi uma escolha dela? Foi algo pelo qual ela batalhou, ou algo que de alguma forma ela mereceu? Todos os doentes terminais, todas as pessoas na fila da hemodiálise ou à espera de um órgão para ser doado, todo o sofrimento dessas pessoas e de suas famílias, foram escolhas? Quero aqui deixar de lado o “karma” e trabalhar somente com aquilo que podemos de fato provar. Tragédias e doenças terminais seriam, então, uma opção? Deficiências físicas ou mentais são uma opção? São uma escolha? Tsunamis e terremotos arrasando cidades e países inteiros são uma escolha? Aquele garotinho imigrante morto na areia da praia estava lá por opção própria? Toda a fome e sede nos países mais pobres, e mesmo no Brasil, foi uma escolha de todas as pessoas que passam por essa situação? Alguém desesperadamente condenado a uma cadeira de rodas pelo resto da vida, ou à falta de um membro qualquer, o fez por opção? O físico teórico e cosmólogo britânico Stephen Hawking escolheu estar preso àquele estado? Todas as pessoas que atravessam problemas psicológicos e patológicos como fobias, Síndrome do Pânico, Transtorno Obsessivo Compulsivo, Transtorno Bipolar, Transtorno de Personalidade Borderline, Esquizofrenia, todas essas pessoas simplesmente optaram por sofrer dessa maneira e fazer sofrer junto toda a sua família, relacionamentos afetivos e amigos? Uma forte depressão que se atravessa, ou com a qual se luta bravamente para não ceder, é uma escolha? Seriam todas essas coisas simples opções de vida, facilmente modificáveis e tratáveis, feitas apenas por diversão, ou por falta do que fazer?

Acredito, sim, que para toda ação existe uma reação. Mas quanta coisa foge ao nosso controle? Somos infinitamente pequenos e frágeis, e o poder de controlar a vida, o planeta, o universo, não é nosso. Esse poder infelizmente não nos foi dado. Nossa responsabilidade vai até certo ponto. Mas não, muitos, mas muitos acontecimentos nessa nossa vida não foram por uma escolha nossa. Existem certos limites. Melhor dizendo, somos incrivelmente limitados, ainda. Ninguém, ninguém sabe o que é estar no lugar do outro, no olho do furacão que é o outro, passando pelas dores que o outro passa. Ninguém sabe como ou por que determinada pessoa chegou àquele estado, e ninguém sabe da grandeza da luta íntima de cada um. Cada um sabe de si, apenas. Cada um sabe o peso e a dor do fardo que carrega. Portanto, um pouco de respeito e empatia em relação a alguém que está passando por uma dificuldade qualquer, esse ato bonito de procurar se colocar um pouco no lugar do outro, e de procurar compreendê-lo é, no mínimo, mas no mínimo, de bom tom. De bom senso. É um dos maiores atos de humanidade a que alguém pode se prestar. Nesse caso, sim, eu diria que a pessoa está passando pela vida com louvor. Cum Laude. Summa Cum Laude. Basta olhar para o lado. Basta se importar.

Ouvindo: Partido Alto, Chico Buarque.
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sábado, 12 de setembro de 2015

Outubro

     "Nesse momento, os sinos começaram a dobrar a finados. O coronel esquecera-se do enterro. Enquanto a mulher tomava o café, desprendeu a cama da rede por uma das pontas e enrolou-a pela outra, para trás da porta. A mulher pensou no morto.
     _ Nasceu em 1922 _ disse ela. _ Exatamente um mês depois do nosso filho. A sete de Abril.
     Continuou a sorver o café nos intervalos da sua respiração ofegante. Era uma mulher constituída apenas de cartilagens brancas por cima de uma espinha dorsal arqueada e inflexível. As perturbações respiratórias obrigavam-na a perguntar afirmando. Quando terminou o café ainda estava a pensar no morto.
     _ Deve ser horrível estar enterrado em Outubro _ disse. Mas o marido não lhe prestou atenção. Abriu a janela. Outubro já se tinha instalado no pátio."

(Ninguém Escreve ao Coronel, Gabriel García Márquez)
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Outubro está instalado aqui dentro já faz algum tempo...
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quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Resenha: Matadouro 5

Resenha: Matadouro 5, de Kurt Vonnegut
Agosto de 2015

Apesar de ser um livro que tem uma guerra como tema central, e de não se furtar a mencionar ou descrever alguns dos horrores dessa guerra, o autor não se prende ao lado sério e político da questão, e transporta facilmente o leitor, que desde o início já se encontra certamente preso e maravilhado por seu talento, carisma, estilo e humor, através dos altos e baixos da envolvente história de Billy Pilgrim. E a partir do momento em que Kurt prende você à história dele, a essa espécie de montanha russa particular, ele faz de você e das suas emoções o que bem entende. O coração aperta, você se preocupa, se entristece, daí você relaxa, é jogado para frente e para trás no tempo, alternadamente, num recurso que chega a ser genial e provavelmente inédito na literatura, e não consegue deixar de dar boas risadas com os sonhos lisérgicos e com as experiências extra-terrenas ainda mais lisérgicas e insuspeitadas vividas por Billy. Uma das primeiras coisas que me encantaram e deliciaram nesse livro foi a descrição do momento em que Billy assiste a um filme de trás para a frente. Que puta ideia incrível. É como se o filme passasse ao mesmo tempo na frente dos olhos de Billy e dos nossos próprios olhos. Para mim foi impossível não visualizar aquilo e falar: que foda isso! Que escritor criativo e sensacional! O autor ainda nos presenteia aqui e ali com poemas e trechos de músicas inspiradores no estilo:

"Deus do céu, do relógio a batida -
ó dia infeliz, ó sorte fodida".

Juro que vou tomar isso emprestado do autor em momentos bem oportunos. Risos. Por fim eu me pego perguntando a mim mesma: por que foi mesmo que eu não li Kurt Vonnegut antes? Nada me resta agora a fazer a não ser me envergonhar de maneira apropriada e corrigir este terrível lapso. Minha avaliação? Tem mesmo como não dar cinco estrelas? Não, não tem. Coisas da vida.
 


Resenha: The Juliette Society

Resenha: The Juliette Society, de Sasha Grey
5 de agosto de 2015

Eu sempre pego um livro para ler, verdadeiramente, aberta às ideias do autor, ao estilo dele, ao que ele pode me trazer de bom através daquela leitura. Procuro sempre, sempre, deixar o preconceito de lado. Mas o fato é que em tudo existe um certo limite. Não dá para ser completamente permeável em relação a tudo, a qualquer estímulo. E num primeiro momento não consegui fazer isso em relação ao livro de estreia de Sasha Grey, famosa ex atriz pornô. E que agora também se define como diretora, cineasta, fotógrafa, musicista e artista performática. Pergunto-me, por vezes, existe algo que Sasha Grey não faça? 

The juliette Society e Sociedade Secreta do Sexo, do brasileiro Marcos Nogueira, vieram na esteira de 50 Shades of Grey. Sasha chega mesmo a citar A Ordem Secreta dos Libertinos, mencionada e pesquisada por Marcos Nogueira em A Sociedade Secreta do Sexo.

Uma das coisas que me incomodaram a princípio foi a necessidade de Sasha de se mostrar culta e cinéfila, se é que ela o é de fato, aliada a uma vontade bastante compreensível de empregar algum tipo de credibilidade ao seu livro de estreia. Me incomodaram a princípio as menções e referências excessivas e aparentemente despropositadas a filmes e a diretores consagrados, e mesmo a famosos artistas visuais como Marcel Duchamp. Cita Godard omo quem, perdoem o trocadilho, goza de certa propriedade, e chega a mencionar Cidadão Kane, de Orson Welles, para mim, intocável. Sasha ainda se propõe a analisar o filme e seu final, como uma perfeita crítica de cinema, com aquela palavra "Rosebud" dita daquela forma, e procura dar um outro significado a ela. E eu jurava que não conseguia ver de forma alguma a conexão de todas as referências cinematográficas dela com a história que ela quer nos contar. Não conseguia perceber o link. Até compreender, a certa altura do livro, que sua personagem principal era uma estudante de cinema. Ainda assim, achei todas aquelas referências bastante excessivas.

A certo ponto eu, que pensava que não me surpreenderia com mais nada relativo a práticas sexuais a essa altura da vida, senti um asco semelhante ao que tive quando assisti uma certa cena de O Último Tango em Paris, ou quando li alguns trechos de A História do Olho, de Georges Bataille, ou do sofrimento da Menina Má nas mãos de seu amante japonês em Travessuras da Menina Má, de Mario Vargas Llosa, no momento em que Sasha me revela a existência do "drilldo". Se você também até agora não sabia o que era isso, faça uma pesquisa de imagens no google e entenda o porquê do meu asco e da minha revolta. Anos e anos de dedicação de grande parte das mulheres ao feminismo, à igualdade de direitos e de respeito entre os sexos, e de repente me deparo com aquele aparelho de tortura moderno, que se encaixaria de maneira muito mais apropriada na Idade Média. Existe uma sexualização e uma objetificação excessivas da mulher, e somente da mulher, na história que Sasha Grey nos conta. E em vez de valer-se da fama, da notoriedade e da influência que tem para criar uma obra qualquer que não ostentasse a misoginia, e colocasse certos valores feministas no devido lugar, ela faz justamente o contrário. Exalta essa objetificação feminina. Ela provavelmente não está interessada no lado intelectual, político e prático dessa brincadeira toda. Se é que ela sabe que existe algum.

Por vezes ela me vem com trechos absolutamente insólitos do tipo:

"Que desperdício de energia preciosa. Se ao menos alguém inventasse uma maneira de estocar essa energia na fonte. Ou encontrasse uma maneira de transformar em combustível os bilhões de Kleenex rígidos de porra descartados diariamente. Se alguém descobrisse como fazer isso, a maioria dos problemas de energia do mundo seria resolvida em um piscar de olhos. Acabariam as guerras pelo petróleo. Não haveria mais pegadas de carbono. Nada de resíduos nucleares. Nem mais um centavo da arrecadação de impostos gasto em pesquisas de fusão a frio."

Continuo até agora sem saber se acho graça do referido trecho ou se só fico mesmo com pena da mentalidade excessivamente fértil de Sasha.

Sua tentativa de transformar o professor Marcus numa espécie de Norman Bates da literatura também não foi bem sucedida. Achei a ideia claramente pretensiosa, e a tentativa, fraca e ineficaz.

Não consegui me excitar realmente lendo essa primeira história de Sasha Grey. Acho que ela erra um pouco a mão na medida do que é explícito, enquanto eu prefiro histórias um pouco mais sutis, que deixem a imaginação respirar e trabalhar um pouco também.

No entanto não dou uma estrela, mas duas. E o fato não é por caridade. Em muitos momentos a história contada por Sasha consegue realmente entreter e fazer você se perguntar o que virá a seguir. Seu primeiro livro tem lá o seu mérito. Existem alguns personagens interessantes e com potencial, tipo Kubrick e Bundy. A história flui, perde um pouco o ritmo lá pelo meio e então se recupera com a chegada de um novo personagem e o fator suspense como bônus. A leitura é fácil, extremamente acessível e simples, como imagino que devem ser os potenciais leitores de Sasha.

Os elementos estão todos lá: alguns personagens interessantes e relativamente bem trabalhados, dinheiro, poder, sexo, suspense, mistério, aventura, romance (extremamente morno entre Jack e a protagonista). A fórmula básica dos best sellers está ali. De maneira que, com um pouco mais de prática, dedicação, talento e investimento financeiro, por que não, Sasha pode acabar um dia chegando lá.

E, claro, como aspirante a cinéfila que sou, não me furtei a anotar títulos de filmes e alguns diretores por mim ainda desconhecidos para conferir depois. ;-)

Resenha: Não Sou Uma Dessas

Resenha: Não Sou Uma Dessas, de Lena Dunham
Agosto de 2015

Ainda não assisti Girls, estrelado, escrito e dirigido por Lena Dunham, mas vi Tiny Furniture no ano passado, e vi aquilo como um tipo de exercício para alguém que sonhava e planejava virar cineasta, o que para mim era a verdade. Considerei-o uma primeira tentativa muito válida. Morna, desinteressante por vezes, mas que tinha todo o direito de estar ali, e de ser daquela forma, uma vez que era algo de fato experimental, realizado por alguém ainda muito jovem. Um trabalho absolutamente válido. Preciso agora conferir Girls.

Acho o mesmo desse primeiro livro de Lena, um experimento despretensioso, corajoso e muito honesto. Algo que parece ser da natureza dela. Expor-se atuando ou escrevendo parece ser para ela uma necessidade, um modo de vida, algo que não poderia deixar de ser da forma que é. Portanto vou abster-me de tentar analisar esta obra de maneira estritamente literária, e séria, e vou apenas dar a Lena Dunham os parabéns pela coragem, pela ousadia que talvez lhe seja algo natural, pelo dom de se mostrar tão humana quanto qualquer outra garota da sua idade. Quanto daquilo não foi parecido com a minha própria história? Quantas vezes eu me emocionei, lendo e me lembrando de detalhes da minha própria vida? Por quantas vezes eu tive vontade de dizer "vem cá Lena, me dá um abraço, você me compreende"? Por isso não analisei e avaliei o livro como quem analisaria e avaliaria uma obra de, sei lá, Virginia Woolf, mas como uma expressão, que não deixa de ser arte, de alguém que é, como eu e como você, humana. Humana, corajosa, dona de talentos, alguém que eu espero muito que não pare de escrever e de se expor por aqui. Porque a mim, Lena Dunham, você diverte com seu bom humor extremamente particular, emociona, cativa, e ainda que em um momento ou outro eu tenha achado que o ritmo de sua escrita por vezes começa a ficar um tanto cansativo e entorpecente, seu primeiro livro volta a me tocar e emocionar, a trazer você um pouco mais para perto de mim. E como é bom descobrir que não estamos sozinhos, que alguém lá do outro lado sente os mesmos medos, angústias, pensa sobre as mesmas coisas, passa por situações que não diferem tanto das suas, alguém como você, no fim das contas. Continue, Lena. Continue. Só lhe desejo crescimento e cada vez mais sucesso.
 

Resenha: Sete Anos: Crônicas

Resenha: Sete Anos: Crônicas, de Fernanda Torres
Agosto de 2015

Me perdoem os religiosos, mas eu, quando piso num teatro, desde o primeiro passo até subir de fato ao palco, aquele clima, a penumbra, o silêncio, sinto algo parecido com o que deve sentir alguém que adentra um templo sagrado. Aquilo pra mim é sagrado. É um espaço sagrado, carregado da emoção dos que já passaram por ali e deixaram sua arte, e da emoção de cada um que já se entregou a um espetáculo que se passou ali dentro. Carregado da minha própria emoção de estar ali e de me transformar em uma artista verdadeiramente plena quando subo no tablado. A energia que rola ali, seja num teatro vazio e receptivo ou num teatro lotado e cheio de expectativa, é linda. Linda. Forte e linda. Todo teatro é sagrado.

Digo isso porque li muitas passagens desse livro de Fernanda Torres com um respeito, uma sensação de irmandade e de acolhimento tamanhos, uma sede tão grande de saber como é toda essa experiência de artista pra ela, como é cada detalhe, cada vivência, cada experiência, de saber como é a pessoa Fernanda, enfim. Considero-me uma eterna aprendiz. E por mais que se saiba nessa vida, sempre, sempre existe algo mais a se aprender. Sempre. E não me decepcionei, de maneira alguma, com essa segunda obra dela. Até porque não faz muito sentido, para mim, comparar um romance com um livro de crônicas, ainda que o autor seja o mesmo. São trabalhos diferentes, processos diferentes, metas diferentes e, quem sabe, públicos diferentes.

Fernanda se revelou, acima de tudo, extremamente humana, extremamente coerente com o trabalho que realiza como atriz, extremamente sensata e lúcida. Há tempos admiro-a imensamente. E está claro que não é só pelo seu humor bárbaro.

Fernanda nos leva, com muita personalidade e inteligência, a uma viagem incrível pelo que era o cinema brasileiro na década de oitenta e a partir de então, narra memórias preciosas, contatos com personalidades consagradas, passa pela política, pela preocupação com a criação dos filhos, pela dolorosa perda do pai, pela admiração pela mãe que vai além da atriz excepcional que é Fernanda Montenegro, e domina página a página. Por vezes nos vem com tiradas do tipo "O novo gênero livrou o cinema da obrigação de causar ereções" e afins, neste caso referindo-se às pornochanchadas. O capítulo "Leila" então, é maravilhoso, de um delicioso humor sutil que pode escapar aos menos atentos.

E se há qualquer espécie de misoginia envolvida nessa história, acredito que pode ter sido algo que ela incorporou automaticamente, através do grupo de atores e artistas com quem ela convivia então, e ao seu estilo próprio de humor, e não algo velado e intencional.

Apenas duas frases escritas por ela me incomodaram um tanto:

"A posição de vítima é, por conquista, da mulher."
"A insegurança nasceu com o teatro."

No mais, leiam e tirem suas próprias conclusões. Por mim, Fernanda leva quatro estrelas. Com louvor.


Resenha: O Irmão Alemão

Resenha: O Irmão Alemão, de Chico Buarque
Agosto de 2015

De todos os livros de Chico que li, este foi o que menos me prendeu e agradou. O talento continua ali, a história é interessante, mas alguma coisa no seu estilo e ritmo próprios se perderam um pouco. Apesar de tudo, é um bom livro, e ainda não deixei de acreditar que o lugar de Chico é na ABL. Tanto seus livros quanto suas composições extremamente criativas, talentosas, inteligentes e cheias de personalidade merecem esse reconhecimento. Fora aquele humor sutil sempre presente, que me leva a imaginar cenas ironicamente insólitas e a dar risadas sozinha, no estilo:


"A vida não passa de uma longa perda de tudo o que amamos, disse Victor Hugo. E com as palavras do imortal francês pranteio, em nome da Academia Brasileira de Letras, o grande intelectual que ora nos deixa, professor Sergio de Hollander. Um assistente do orador puxa aplausos que não vingam, porque os presentes não podem abrir mão dos guarda-chuvas que mal os protegem do temporal."

Ou:

"Que dia é hoje?, ela me perguntava. Vinte e cinco de janeiro de 1973. Ainda? Já ia avançado o mês de agosto, mas eu retardava o calendário a fim de compensar sua ansiedade: e agora, que dia é? Ela estranhava que o tempo ultimamente andasse tão pesado, e de fato, lá em casa, 1973 levou alguns anos para passar."

Algumas passagens deliciosas, outras nem tanto. Chico parece ter perdido um pouco o fôlego nesta sua última obra. Espero de coração que ele retome seu ritmo e reencontre a força de seu estilo muito em breve.

Resenha: A Elegância do Ouriço

Resenha: A Elegância do Ouriço, por Muriel Barbery
11 de Junho de 2015

Quero e sinto que devo escrever algo sobre este livro. Mas não sei de que maneira começar. Tomo emprestada a trilha sonora de Muriel Barbery ao final, Satie, e prometo tentar esboçar aqui alguma coisa. Às primeiras páginas, pensei comigo mesma: ótimo, outro daqueles romances filosóficos no mínimo curiosos. Acho que vou gostar, apesar de me parecer a princípio um tanto quanto pretensioso. Achei ótimas algumas questões levantadas pela pequena Paloma, e uma pena que fossem tratadas de maneira relativamente breve. Um pena maior ainda que não exista a possibilidade de uma forma de interação verbal com aquele livro que está na nossa frente, porque por várias vezes o assunto abordado me despertou e me deu vontade de me aprofundar naquilo e de debater mais a fundo aquelas questões. Quem sabe eu não escreva algo sobre essas questões num blog, talvez? De início achei tudo muito interessante, mas lá pela metade a história se perde um pouco, e perde o fôlego. Uma pena. Mas só para, logo em seguida, mostrar a que realmente veio, priorizar o lado humano da história toda, e focar nas relações entre os personagens, que de início viviam mergulhados cada um em seu mundo interior. E isso, essa valorização da questão humana, na minha opinião, quando se trata de um romance que aborda de maneira tão enfática toda questão filosófica, tem qualquer significado aí nas entrelinhas. O que houve, ao final, foi que eu me envolvi com os personagens de maneira muito mais viva e passional do que havia me envolvido no início. E o romance filosófico prioriza, vejam só, as boas e velhas relações humanas. A dor, a alegria, o prazer, as dúvidas, o medo, os planos, as descobertas, tudo o que só é possível quando não se é feito só. O que parece tão complexo, o que nos parece por tantas vezes tão vital e imprescindível, toda a ciência, toda a filosofia, todo o estudo, todas as ginásticas mentais a que nos entregamos e nos dedicamos em relação às várias questões da vida, da existência, da morte, do universo, são caminhos que acabam por se unir e levar ao mais importante deles: os relacionamentos humanos. A afeição. A amizade. A compaixão. O amor. Isso que liga a todos nós e a que ainda não fomos capazes de dar um nome adequado. O livro de Muriel Barbery me emocionou verdadeiramente, e cheguei a sentir dor ao final, ao ter que abandoná-lo. Esse, para mim, é um excelente parâmetro a partir do qual sou capaz de julgar um bom ou mau livro. A Elegância do Ouriço é, sem dúvida alguma, um ótimo livro.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

O amor é velho, menina

O Amor É Velho-menina

Tom Zé

O amor é velho, velho, velho 
e menina.
O amor é trilha 
de lençóis e culpa
medo e maravilha.

O tempo a vida lida
andam pelo chão,
o amor aeroplanos
O amor zomba dos anos,
o amor anda nos tangos,
no rastro dos ciganos,
no vão dos oceanos.

O amor é poço 
onde se despejam
lixo e brilhantes:
orações, sacrifícios, traições.

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segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Diz quantos desastres tem na minha mão...

Música do dia. Lindíssima, com letra do Chico e a voz do Milton.
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Beatriz

Olha 

Será que ela é moça 
Será que ela é triste 
Será que é o contrário 
Será que é pintura 
O rosto da atriz 
Se ela dança no sétimo céu 
Se ela acredita que é outro país 
E se ela só decora o seu papel 
E se eu pudesse entrar na sua vida 

Olha 

Será que é de louça 
Será que é de éter 
Será que é loucura 
Será que é cenário 
A casa da atriz 
Se ela mora num arranha-céu 
E se as paredes são feitas de giz 
E se ela chora num quarto de hotel 
E se eu pudesse entrar na sua vida 

Sim, me leva pra sempre, Beatriz 

Me ensina a não andar com os pés no chão 
Para sempre é sempre por um triz 
Aí, diz quantos desastres tem na minha mão 
Diz se é perigoso a gente ser feliz 

Olha 

Será que é uma estrela 
Será que é mentira 
Será que é comédia 
Será que é divina 
A vida da atriz 
Se ela um dia despencar do céu 
E se os pagantes exigirem bis 
E se o arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida
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domingo, 6 de setembro de 2015

Vinagre e sal

Esse é um dos casos em que a melodia diz muito mais sobre dor, sobre a minha dor, do que a própria letra. Para mim, uma das melodias mais lindas. Mas também uma das mais tristes. Hoje ela diz dessa dor de solidão e estagnação que sufoca e mói tudo por dentro. E de decisões que eu jamais gostaria de precisar tomar para não voltar ao estado de insuportável inércia e falta de evolução em que me encontrava durante minha última depressão, entre 2013 e o princípio de 2014. Estou, como naquele filme, à espera de um milagre qualquer. Hoje... hoje tudo sufoca e dói. Hoje tudo tem gosto de vinagre e sal.
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quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Imprescindível leveza

Estava irremediavelmente cansada das coisas do mundo, e das coisas do amor. Este último, concluíra por fim, depois de muito se lançar e acabar indo sempre de encontro a pisos dolorosamente áridos, lamentavelmente não estava em seu caminho. Não nesta vida. Esgotara-se. De tudo. De todos. Olhou todas aquelas coisas que juntara ao longo de toda uma vida, desde as paredes em dry wall do apartamento barato a cada mínimo detalhe. A cada copo ou prato, a cada quadro na parede, as almofadas, a televisão, o notebook, o celular de última geração, às coleções todas, de livros, de filmes, de lembranças trazidas do outro lado do mundo, da mesinha num canto, que reunia suas imagens de santos e entidades mais queridos e toda a sua coleção de incensos, numa ode ao sincretismo, coisa em que sempre havia acreditado por toda a sua vida, desde a infância. Olhou a coleção de dvds e discos que lhe era tão cara. Olhou cada objeto de arte e cada recordação e fotos de amigos, alguns vivendo hoje tão longe. E se perguntou: por quê? O que, no meio de tudo aquilo, lhe fazia realmente falta? O que lhe era de fato imprescindível? Realmente imprescindível? Nada, ou quase nada, concluiu. E sendo assim, esgotada e decepcionada, reuniu numa mochila surrada as poucas coisas que ainda acreditava precisar usar. Não ficou pesada, afinal. Olhou tudo aquilo pela última vez, sem conseguir sentir, sem conseguir chorar. Encostou a porta do apartamento e saiu sem rumo. Não sabia exatamente para onde se dirigia, mas sentia uma falta incrível do mar. E foi na direção dele que andou. Os cabelos soltos, batidos pelo vento, as sandálias baratas compradas na última ida à feira, o vestido leve, de estampa discreta, esvoaçando. Andou por muito, muito tempo, até alcançar a calçada que enfim a separava daquele mar imenso. Estonteantemente imenso, e tão, tão mais respirável. O vento batia e levava cada mágoa, cada ponta de cansaço, cada desentendimento e amizade perdida, cada amor que não chegara a passar de um embrião. Cada tentativa vã. Cada sentimento inútil, que só lhe fazia desgastar-se mais, e mais, e mais. Foi para junto de onde as ondas arrebentavam, e continuou a caminhar. As sandálias incomodavam, queria sentir a areia sob os pés. Era das poucas coisas que realmente podemos dizer que temos. As sensações do nosso corpo. Essa sensação da areia molhada sob os pés quando estamos à beira da praia. Arrancou as sandálias e atirou-as fora, e andou, andou, andou. A certa altura, ninguém à vista, desfez-se também do vestido, e seguiu margeando a arrebentação das ondas. O ventou lhe deu a sensação de levar tudo. De lavar tudo. De um frescor e de uma leveza que há muitos anos não sentia. Ventava mais forte agora. O sol estava se pondo, mas ela não sentia frio. Então, como num sonho, como se transformasse numa espécie de anjo, sem peso, sem dor, sem nada que lhe segurasse ou impedisse, suas pegadas no chão começaram a ficar mais suaves. Desfez-se da mochila. Àquela altura já não queria mais nada. Nada mais lhe era essencial. E enquanto andava, seus passos iam ficando menos e menos marcados na areia. Até que percebeu que não era só o peso das roupas ou da mochila que lhe faziam mais leve. Ela se desfazia, bem aos poucos, como poeira à beira do mar. A pele, o cabelo, tudo, tão leve, tão leve, tão... leve... O vento continuava soprando, e, junto ao barulho das ondas, eram agora as únicas coisas que lhe faziam sentido. Nenhum sofrimento. Nenhuma dor. Nenhuma decepção. Nenhum peso tomava agora conta do seu corpo, ou da sua alma. Lentamente, Maya continuou andando, e se desfazendo, e andando, até que seus últimos traços desapareceram no ar. Era assim que tinha que ser. Desde o princípio. Se alguém passasse por ali agora, não encontraria nada além da areia fina, sem marcas, e das ondas do mar, que continuavam arrebentando na costa. Aquele ir e vir incessante, que é parte da vida. De toda vida. Aquele desfazer-se e refazer-se constante. De novo. De novo. De novo. Maya talvez voltasse a se refazer em algum lugar, em algum momento, em algum tempo, sob uma circunstância qualquer. Mas isso agora não importava. Não importava mais. Agora era tudo calmo, e leve. Tão leve. Agora ela estava em paz.
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domingo, 30 de agosto de 2015

Quando eu morrer, filhinho

Onze anos hoje, minha mãe. Todo o meu amor pra ti, onde estiveres. De resto, tu bem o sabes.

"Quando eu morrer, filhinho,

Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é."

(O Guardador de Rebanhos, Fernando Pessoa)

Split

Tive minha fase de poeta entre os dez e os treze anos. Não vingou. Já era perdidamente apaixonada por contar histórias desde os sete anos de idade, quando escrevi e ilustrei meu primeiro livrinho, e com ele ganhei uma medalha de primeiro lugar num concurso de literatura infantil promovido pelo SESI. Lembro perfeitamente a ansiedade e o orgulho dos meus pais, que no dia da premiação já sabiam do resultado, mas quiseram me fazer uma surpresa. E eu demorei a acreditar que era o meu nome que chamavam lá na frente. Engraçado como as coisas mais marcantes da minha vida aconteceram aos sete, aos dezessete, aos vinte e sete... Mas o caso é que em 2009 eu passava por uma fase longa de angústia e depressão intensas, quando a ideia pra um poema me veio um dia durante o banho, como em sussurros psicóticos. Como se eu tivesse febre e delirasse. Saí rapidinho do banho e anotei tudo. Queria intercalar frases que seriam sussurradas por duas entidades que de alguma maneira eram uma só, ou por um anjo e um demônio, cada um mergulhado em seu monólogo, mas juntos sob a luz de um palco. Eram frases intensamente otimistas misturadas a outras que eram justamente o oposto. Eu queria intercalar as frases, como numa disputa entre bem e mal, fazer com que a ideia como um todo fizesse algum sentido, e ainda usar rimas. Trabalho árduo e confuso. Risos. Desse caos total nasceu Split. Um poema que poderia ser lido linearmente, como um todo, ou só as linhas pares, e depois só as ímpares. Queria que essa dualidade ficasse clara, e me preocupei muito em terminar tudo com uma frase que fosse otimista. Porque apesar de qualquer depressão, sou alguém otimista por natureza, e acreditava muito em uma melhora. Em uma cura qualquer, e eu ainda não sabia exatamente de quê. Poucos meses depois, no princípio de 2010, eu seria diagnosticada como bipolar. Split então passou a ter para mim um sentido quase místico. Embora meu diagnóstico tenha sido corrigido há três meses para um Transtorno de Personalidade Borderline, e eu tenha ingressado oficialmente no time dos Borders, Split ainda faz todo um sentido pra mim. Ainda é, para mim, o que eu já escrevi de mais especial e significativo. E, sem dúvida nenhuma, o que mais me deu trabalho. Nunca foi publicado na rede, já que na época eu já tinha deletado meu blog Cena7, do que me arrependo muito, e ainda não tinha criado um outro. Split vai agora ter o seu momento "debut virtual". 

O único problema é que a ideia pra esse poema me chegou em inglês, e em inglês ela foi executada. Ainda não fiz nenhum tipo de tradução, acho inclusive que daria mais trabalho até do que o próprio poema. Seria todo um outro poema. Mas um dia eu me arrisco e faço uma tradução. ;-)

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split

down on her knees

under daylight she lies
she whispers and cries
over her future and sees
and shouts
her lies
and screams among flames
on a calm, deep lake
her fever is high
so deep like her past
it is so dark
but still clear
inside her like
no one can hear
hell, she lies
when she cries
to herself
into this mirror
every smile she fakes
so she closes her eyes
and it feels like she dies
and she dreams
among demons and madness
she is an angel
she is evil
she is strong
like Saturn and sphinxes
she can do anything
she is lost
like Ismalia
between day and night
so she spreads her wings
where Sun gives birth to Moon
and flies, flies
no light and no hope
it feels like she is free
and the voices won't stop
she will find the cure
no mercy, just half life
a bright day she sees 
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sábado, 29 de agosto de 2015

Transparências e diversidade

Deixar transparecer parte de toda a dor que é inegavelmente inerente ao nosso processo de crescimento enquanto indivíduos, enquanto seres humanos, não implica necessariamente em fraqueza, em falta de visão, de esclarecimento, de evolução ou de fé em algo. É talvez o que nos humaniza, o que nos torna acessíveis e empáticos, é o que caracteriza a sensibilidade, a essência e a personalidade de cada um, criando diversidade e riqueza dentro da espécie humana, e um campo de aprendizado vastíssimo.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Hidden numbers

"There is a number hidden in every act of life, in every aspect of the universe. Fractals matter that there's a number screaming to tell us something. I guess I try to tell them that numbers are a door to understanding a mistery that's bigger than us. How two people, strangers, come to meet. There's a poem by a Venezuelan writer that begins... 'The earth turned to bring us closer. It turned on itself and in us until it finally brought us together in this dream.'" 

(21 Grams, Alejandro González Iñárritu, 2003)

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"Há um número escondido em cada ato da vida, em todos os aspectos do universo. Fractais indicam que existe um número gritando para nos dizer alguma coisa. Eu acho que tento dizer a eles que os números são uma porta para a compreensão de um mistério que é maior do que nós. Como duas pessoas, estranhas, venham a se conhecer. Há um poema de um escritor venezuelano que começa assim... 'A Terra girou para nos aproximar. Ela girou sobre si mesma e em nós, até que finalmente nos reuniu neste sonho '"

(21 Gramas, Alejandro González Iñárritu, 2003)

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Ilusão

"Uma vez eu tive uma ilusão E não soube o que fazer Não soube o que fazer Com ela Não soube o que fazer E ela se foi Porque eu a deixei Por que eu a deixei? Não sei Eu só sei que ela se foi"
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segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Borders

Pros amigos, familiares e amores que eu já prejudiquei e chateei muito nessa vida, para aqueles que eu infelizmente acabei perdendo, e pra quem leu meu texto ontem no facebook e acredita que o meu problema seja uma simples depressãozinha que vai passar com mudança de ares e exercício, ou que eu estava exagerando em algum ponto. A coisa é "um pouquinho" mais complicada do que parece. Quem sofre com esse transtorno precisa de muita paciência, carinho e compreensão da parte dos outros. Ressalto que o transtorno se manifesta de maneira diferente para cada pessoa. Não somos todos iguais, seguindo a receitinha que Ana Beatriz Barbosa passou aí, não. Eu, por exemplo, sou bastante calma quando estou com os amigos ou em situações sociais, não me considero nada, ou praticamente nada, ciumenta (o que já foi comprovado por ex namorados) e definitivamente não sou dada à efusividade e aos excessos na fala. Entre outras coisas. Mais uma vez: compreensão, paciência e carinho fazem toda a diferença.
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sábado, 22 de agosto de 2015

Resistência

"Não me entrego sem lutar
Tenho ainda coração
Não aprendi a me render
Que caia o inimigo então"
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sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Resenha: We Should All Be Feminists

Resenha: We Should All Be Feminists, Chimamanda Ngozi Adichie
Agosto de 2015

Chimamanda é tão linda, por dentro e por fora, mas tão linda, em sua maneira de se expressar, em suas ideias, que eu nem sei por onde começar a comentar esse curto livro baseado numa palestra dada por ela numa conferência anual em dezembro de 2012. Pra começar, logo de cara me senti ligada a ela por sermos contemporâneas. Ambas do ano de 77. Boa safra, risos. Dela até agora só tinha lido Hibisco Roxo, e ficado encantada com sua escrita e sensibilidade. O próximo será o aclamadíssimo Americanah. Estou super curiosa e ansiosa em relação a ele. Mas, pra começar a falar um pouquinho sobre o que achei das ideias de Chimamanda sobre feminismo, quero falar um pouquinho da minha própria experiência com o tema.

Foi muito cedo na minha vida, ainda criança, que eu descobri que era feminista. Que tinha ideias extremamente feministas. Se alguém dissesse algo levemente machista na minha frente, lá vinha eu me intrometer na questão com ideias que eu julgava certas, apropriadas e coerentes com o nosso tempo que, afinal, visivelmente não era mais a idade média já fazia um tempinho. Se meu pai estivesse na roda, ele já avisava à vítima: "cuidado que essa aí é ferrenha, hein!" No que eu achava graça. E era mesmo. Cheguei mesmo, por volta dos 17 ou 18 anos, a esboçar e começar a escrever um livro que tinha o machismo e o feminismo como temas centrais, ambientado no século XIX. Era sobre uma moça inteligente que queria estudar, não se casar, ser livre e correr o mundo, mas o pai obviamente se opunha às ideias e vontades dela. Acabei abandonando a história pela metade, como dezenas de outras que eu havia começado, quando a depressão entrou e se instalou na minha vida. Mas o fato é que o feminismo sempre esteve aqui no meu sangue, circulando nas minhas veias e por todo o meu corpo. Nunca fui daquelas radicais. Radicalismo não é a minha, nunca foi. Sempre estive em busca de visões de mundo mais centradas, equilibradas. Talvez eu ainda escreva aquele livro, aproveite uma ou outra ideia, descarte algumas, quem sabe? De volta a Chimamanda. Que vontade que me deu de destacar aqui mil trechos do que ela escreveu sobre o tema! Que clareza de pensamento, que sensatez, que mente privilegiada ela tem! Nem o bom humor lhe falta!

"Em 2003, escrevi um romance chamado Hibisco roxo, sobre um homem que, entre outras coisas, batia na mulher, e sua história não acaba lá muito bem. Enquanto eu divulgava o livro na Nigéria, um jornalista, um homem bem-intencionado, veio me dar um conselho (talvez vocês saibam que nigerianos estão sempre prontos a dar conselhos que ninguém pediu). Ele comentou que as pessoas estavam dizendo que meu livro era feminista. Seu conselho — disse, balançando a cabeça com um ar consternado — era que eu nunca, nunca me intitulasse feminista, já que as feministas são mulheres infelizes que não conseguem arranjar marido. Então decidi me definir como 'feminista feliz'. (...) De qualquer forma, já que o feminismo era antiafricano, resolvi me considerar 'feminista feliz e africana'."

"E se criássemos nossas crianças ressaltando seus talentos, e não seu gênero? E se focássemos em seus interesses, sem considerar gênero?"

"Algumas pessoas me perguntam: 'Por que usar a palavra ‘feminista’? Por que não dizer que você acredita nos direitos humanos, ou algo parecido?' Porque seria desonesto. O feminismo faz, obviamente, parte dos direitos humanos de uma forma geral — mas escolher uma expressão vaga como 'direitos humanos' é negar a especificidade e particularidade do problema de gênero. (...) Uma vez eu estava falando sobre a questão de gênero e um homem me perguntou por que eu me via como uma mulher e não como um ser humano. É o tipo de pergunta que funciona para silenciar a experiência específica de uma pessoa. Lógico que sou um ser humano, mas há questões particulares que acontecem comigo no mundo porque sou mulher. Esse mesmo homem, a propósito, com frequência falava da sua experiência como homem negro."

"A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem a cultura. Se uma humanidade inteira de mulheres não faz parte da nossa cultura, então temos que mudar nossa cultura."

"Sou feminina. Sou feliz por ser feminina. Gosto de salto alto e de variar os batons. É bom receber elogios, seja de homens, seja de mulheres (cá entre nós, prefiro ser elogiada por mulheres elegantes)."

Eu também, Chimamanda. Eu também. O mais engraçado é que, de todos os elogios e olhares que já recebi, dos dois gêneros, mas na maioria esmagadora, de homens, o que mais me deixou realmente lisonjeada foi o olhar demorado que ganhei na rua de uma mulher que eu achei super linda, bem vestida, estilosa e muito elegante. O tipo de mulher que eu quero ser na vida. Se ela era lésbica, se era bi, não interessa. E aqui não vem ao caso que, por acaso, eu seja bi. De verdade. A questão é que ela era exatamente o que eu tenho por modelo de beleza. Esse tipo de elogio, sim, valeu por todos os outros que já ganhei na vida. O que nos leva ao fato de que não, as mulheres não se vestem em função dos homens. Ao menos comigo não é assim. Posso afirmar de mim mesma exatamente o que Chimamanda afirma de si: "O 'olhar masculino', como determinante das escolhas da minha vida, não me interessa."

Por fim, penso em minha mãe, na pessoa linda, talentosa e brilhante que ela era. E então entendo de onde vieram meus primeiros pensamentos feministas. Minha mãe não foi radical, não queimou sutiã na praça, não parou de se depilar (gente, pra que mesmo esse radicalismo todo? Alguém se sente realmente bem fazendo essas coisas e vivendo dessa forma? É isso mesmo que significa feminismo? O feminismo não deveria visar justamente o respeito às questões da mulher e seu bem estar?). Não, ela não foi dessas radicais, mas sabia se colocar no mundo do jeito dela, com base em tudo o que ela acreditava. Sabia se respeitar. Gostava de cabelo curtinho, como eu gosto. E os usou durante toda a juventude, até se casar. Casou-se no civil e na igreja, como convém a uma boa moça, sim. Mas se casou de vestido preto no civil. E de vermelho escuro na igreja. Um escândalo na época, e até mesmo ainda hoje. Minha mãe foi minha primeira heroína. Meu primeiro modelo de mulher independente, segura, moderna, uma mulher que se respeitava. Foi, e sempre, sempre será. Onde quer que esteja agora.

Pra finalizar, este livro nos traz uma excelente notícia: 

"Eleito um dos dez melhores livros do ano pela New York Times Book Review e vencedor do National Book Critics Circle Award, Americanah teve os direitos para cinema comprados por Lupita Nyong’o," ( Emoticon heart ) "vencedora do Oscar de melhor atriz por Doze anos de escravidão."

Agora é aguardar mega ansiosamente para ver a história nas telas!

sábado, 15 de agosto de 2015

Do not go gentle

Do Not go Gentle Into That Good Night
Dylan Thomas
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"Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rage at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.
Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.
Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.
Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.
And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light."

Sobre escolhas e manipulação

Estava conversando online com uma amiga essa semana, e surgiu um tema que eu senti necessidade de discutir para além do tópico de facebook em que estávamos nos comunicando. Eu admiti que assistia o canal da Globo, um ou outro programa, ou partes de programas. E logo pensei comigo: que espécie de medo deveria ter eu de consumir notícias supostamente manipuladas e tendenciosas (muitas o são de fato) e algum eventual entretenimento? Será que eu não vou saber filtrar dali o que me interessa, o que me faz bem, o que não representa para mim uma perda de tempo? Será que eu não vou ser capaz de ser crítica e de levar comigo somente aquilo que for realmente interessante e edificante de alguma maneira? Será que a minha capacidade crítica, será que o meu discernimento andam assim tão falhos?

Admiti que vejo, sim, o telejornal da tarde na Globo. E gosto. Acho leve, âncoras simpáticos, clima bem humorado, matérias variadas. Ora, se os telejornais e a programação televisiva são manipulados e tendenciosos, bem como muitos veículos de informação impressa, sinto informar que a política é também um meio inteiramente manipulado, todo e qualquer tipo de propaganda é igualmente uma tentativa descarada de manipulação, e durante a maior parte do seu tempo existe algum tipo de manipulação tentando agir sobre você. A questão não é nem procurar fugir de toda essa estratégia, porque praticamente não se tem mesmo escolha: é optar por aquela que mais lhe convém, ou melhor: aquele tipo de manipulação que menos vai lesar você, depois de tudo colocado na balança.

A gente não está aqui para ser servida, entretida, adulada, satisfeita, o mundo não tem nos provado de maneira alguma que essas são as funções dele. A lei que impera ainda é a lei da selva, do "eu ganho e você perde", ainda não se descobriu um jeito de fazer isso de maneira que todos saiam ganhando. As ferramentas que lá no início eram tacapes, armas brancas, armas de fogo, hoje em dia se sofisticaram e estão aí implícitas na economia, na política e na sociedade em geral em forma de estratégias, verbais ou não, em forma de manipulação, pura e simples. E enquanto não conseguirmos uma maneira de viver sozinhos e de fabricar nosso próprio consumo, todo ele, vamos ter que nos sujeitar sim a várias formas de manipulação, desde o poder econômico e político até a escolha de tudo o que consumimos, sejam as opções ruins, péssimas ou piores ainda. Ou sejam elas, com sorte, eventualmente boas ou até excelentes. 

E aí é que entra o nosso poder de escolha. É nesse âmbito que se revela o nosso poder. Extremamente limitado e castrante, é verdade. Mas ainda assim é o poder de que dispomos, e não podemos e não vamos abrir mão dele. O poder de julgar, de criticar e de fazer escolhas com base nos resultados. Ora, somos seres que pensam de maneira crítica, que são capazes de ouvir uma notícia e analisar aquilo ou somos meras esponjas esparramadas na frente da tevê? Basta colocar o senso crítico para funcionar. Ninguém aqui tem oito anos de idade mais. E até essa meninadazinha de sete, oito anos, já tem espírito crítico desenvolvido e com certeza não sai por aí acreditando em qualquer papai noel que vê na tevê ou na esquina. 

Não acredito que a maneira mais sensata e vantajosa de agir seja colocar vendas dos lados dos olhos e decidir não ver o que está aí, mas ver, sim, criticar o que vê, filtrar e usar aquilo que foi filtrado a nosso favor. De maneira que eu vejo, sim, alguns telejornais. Leio Veja quando me cai alguma nas mãos. Leio, leio de tudo. Leio muito. Escolho entre Seara, Friboi, Pif Paf, ora, a escolha é um direito meu, por mais que as propagandas procurem me manipular. E acontece da mesma maneira com a informação. Eu é que escolho se vou aceitar bovinamente tudo o que me é passado através da tela de uma tevê, ou se vou resolver me posicionar de maneira crítica em relação a todos os estímulos que chegam até mim.

Eu, pessoalmente, confio plenamente na minha capacidade crítica, no meu bom senso, na minha capacidade de discernimento e na minha inteligência, de maneira que eu me sinta algo segura para fazer as escolhas que eu preciso fazer a cada minuto. O caminho não é limitar, não é atrofiar, não é mutilar ou afunilar. O caminho, na minha opinião, é ampliar possibilidades e aumentar o campo de visão, aumentando, em consequência, a quantidade daquilo que podemos julgar, analisar e escolher. Ampliando dessa forma a oferta e também o nosso poder de escolha. Então, que venham as notícias tendenciosas e manipuladas. Risos.



sábado, 1 de agosto de 2015

O ovo apunhalado

Do conto "O Ovo Apunhalado", de Caio Fernando Abreu.

"Para ler ao som de Lucy in The Sky With Diamonds, de Lennon e McCartney."


"Uma tarde eu coloquei um cadeira de balanço no pátio da minha casa e fiquei ouvindo essa música. Tinha umas roupas brancas coarando no varal, um sol forte batendo bem na minha cara, eu comecei a suar, mas não tinha importância: eu queria ficar ali, no meio das roupas brancas, sentindo o sol quente bater na minha cabeça, balançando a cadeira e ouvindo aquela música. Quando o sol estava se tornando insuportável _ porque sempre chega um momento em que até o bom se torna insuportável _, quando chegou esse momento eu olhei para a janela deles e vi uma menina me olhando atrás das grades. Quando ela viu que eu olhava, começou a erguer devagar a blusa curta, cheia de listras coloridas, e me mostrou os seios. Entre os seios recém-nascidos, havia um ovo com um punhal cravado no centro de onde escorria um fio de sangue que descia pelo umbigo da menina, escorregava por cima do fecho da calça e pingava devagar bem no meio da clareira de sol onde eu estava.

_ Meu nome é Lúcia _ ela disse, _ Eu estou no céu com os diamantes."

Dedico o trecho deste último conto do livro de Caio Fernando Abreu a todos os ovos apunhalados da minha vida. A tudo o que foi assassinado antes de ter a grata oportunidade de nascer, e respirar. Aos sonhos, planos, amores que não puderam vir à tona. E a todos aqueles que ainda virão. E que o punhal não se faça destino. Que tudo vingue. Que tudo viva. Que tudo seja.


(Postado no facebook no dia 06 de abril de 2015)






domingo, 5 de julho de 2015