domingo, 4 de outubro de 2015

De janelas e de portas

Minha vida é essa eterna e insistente busca por abrir novamente as janelas e as portas que me vão sendo fechadas. E por abrir outras novas, que me façam tanto sentido quanto aquelas primeiras. As minhas, mantenho-as sempre escancaradas. Pergunto-me qual é, afinal, a grande vantagem em ser da maneira como sou. Peito sempre aberto. Dar tudo, e receber quase nada. Precisa haver uma razão. Na falta de uma, sigo de janelas e portas abertas. Porque acredito em mim. Porque acredito no que faço. E porque é só assim que faz sentido.

“The only flower in a concrete garden
Destined to be the rock that wouldn't harden“


Ouvindo: Hooverphonic, Jackie Cane
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To crawl. To curl.

“Music was my refuge. I could crawl into the space between the notes and curl my back to loneliness.” 
― Maya Angelou

O ano em que envelheci dez anos em um

2015. O ano em que envelheci dez anos em um.
Que um dia eu consiga catar todos os meus cacos do chão. Que eu consiga me refazer. E que a paz possa se fazer mais uma vez. Agora preciso de força. Muita força. Muito mais do que eu acreditei que poderia haver aqui dentro de mim, e há. Agora o que me resta é ter fé. E que esta nunca me falte. Que minha mãe, minha madrinha e meus avós possam jogar sobre mim, de onde estiverem, essa luz de que tanto preciso agora. Porque o caminho ainda vai ser longo. E porque não foi um caminho fácil o que eu escolhi para mim. Eu sei que não.

"Conheci as torres e os cemitérios
Conheci os homens e os seus velórios"

Ouvindo: Down in The River to Pray, Alison Krauss. Essa música fez parte da trilha sonora linda do excelente filme "O Brother, Where Art Thou?", de Joel Coen e Ethan Coen (2000).
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sábado, 3 de outubro de 2015

Melancolia do meio dia

Canta pra mim, Janis. Me conforta, me dá colo.

Ouvindo: Little Girl Blue, Janis Joplin
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Resenha: Homem no Escuro, de Paul Auster

Resenha: Homem no Escuro, de Paul Auster
Outubro de 2015

Não sabia se escreveria ou não uma resenha sobre este livro. Não são todos os que me tocam e transformam, e que me despertam esse desejo. Não sabia se escreveria algo, até que ele me surpreendesse por sua inegável e intensa criatividade. Por sua doçura e sensibilidade. Por sua habilidade em manipular emoções. Não sabia se escreveria algo, até que minhas lágrimas acabassem por surgir, em um ou outro momento. Até sentir, por vezes, que a dor que Paul Auster descrevia era minha, e que essa dor sufocava. Até me apaixonar perdidamente à primeira vista, junto com Sonia e August. Até sentir, junto com August, que “os deuses me pregaram uma peça, e a garota por quem eu estava destinado a me apaixonar, a única pessoa que foi colocada neste mundo para dar algum sentido à minha vida, foi arrebatada de mim e lançada numa outra dimensão — um lugar inacessível, um lugar onde eu nunca teria permissão de entrar.” Até me identificar com aquele seu “poema comprido e ridículo sobre mundos paralelos, chances perdidas, as mancadas trágicas do destino. Vinte anos de idade, e eu já me sentia amaldiçoado”, só para que aquele reencontro acontecesse pouco depois, e as minhas próprias esperanças na sabedoria dessa vida fossem renovadas. Até compreender, como August, que “tem tanta coisa que nunca entendi em Sonia”, e “tem tanta coisa que nem ela entendia em si mesma.” Até conhecer a teoria do filósofo italiano Giordano Bruno sobre a possível existência de “um número infinito de mundos”, e isso muito antes de Stephen Hawking, ainda no século XVI. Até me confrontar com a ideia extremamente perturbadora de que “existem muitos mundos, e todos seguem paralelos uns aos outros, mundos e antimundos, mundos e mundos-sombra, e cada mundo é sonhado ou imaginado ou escrito por alguém num outro mundo. Cada mundo é a criação de uma mente.” E imaginar, junto com August, que “é só pensar, e isso tem toda a chance de acontecer.” Compreender, com ele, que “a verdade é que os filhos não aprendem nada com os erros dos pais”, e reforçar minha tese de que a experiência própria ainda é a nossa melhor mestra. Emocionar-me porque “durante aqueles últimos anos, Betty me contou, Gil colocava bilhetinhos de amor nas gavetas da escrivaninha dela, escondia os bilhetinhos no meio dos sutiãs, combinações e calcinhas, e toda manhã, quando ela acordava e se vestia, achava mais um bilhetinho de amor declarando que ela era a mulher mais fantástica do mundo.” E porque “Betty morreu porque estava com o coração partido. Algumas pessoas riem quando escutam essa frase, mas isso é porque elas não conhecem nada do mundo. Pessoas morrem porque estão com o coração partido. Acontece todo dia e vai continuar a acontecer, até o fim dos tempos.” E que, apesar de tudo isso, “o tesão é uma constante humana, o motor que faz o mundo girar”, e que “o mundo bizarro continua a girar” mesmo, independente dos nossos desejos e dos nossos sonhos. Até encantar-me por Katya, por ironia a segunda personagem estudante de cinema que encontro em um livro, com apenas dois meses de separação entre um e outro. Novas sugestões de filmes e de diretores, e essa lista imensa que não vai parar nunca de crescer. Até ler a segunda menção a Ozu em livros diversos, por outra das muitas coincidências desta minha vida, bem pouco tempo depois de eu ter tido contato com sua obra através de um diretor que admiro muito, Wim Wenders. Diretor que, por sua vez, teve seu trabalho bastante marcado pelos filmes desse mestre japonês, tendo inclusive parado as filmagens de “Paris, Texas” para filmar o que viria a ser uma grande homenagem a Ozu, “Tokyo Ga”. E toda essa minha gratidão pelo flerte eterno entre as várias formas de arte, entre a literatura e o cinema, e vice-versa, em que todo amante das artes se deleita como em uma imensa cama de veludo vermelho repleta de prazeres. E toda essa minha identificação com Noriko, personagem de um filme de Ozu muito admirado por August e Katya, “essa jovem que sofreu em silêncio por tanto tempo, essa boa mulher que se recusa a acreditar que é boa, pois só os bons duvidam de sua bondade, o que é exatamente aquilo que, antes de tudo, os torna bons.” Porque “os maus sabem que eles são bons, mas os bons não sabem de nada. Passam a vida perdoando os outros, mas não conseguem perdoar a si mesmos.” E, de fato, não conseguem. Não consigo. E toda essa guerra acontecendo lá fora, e aqui dentro ao mesmo tempo. Toda essa guerra que nos deixa acordados, no escuro, muitas vezes sem conseguir dormir. inventando histórias que nos sejam minimamente mais suportáveis do que toda essa nossa realidade louca. Toda essa madrugada escura que desperta o pior em nós, os piores sentimentos que, muitas vezes, só se vão quando aquele primeiro pássaro emite o seu primeiro som do dia, ali naquela árvore, bem ao lado da nossa janela. E a vida então renasce, as esperanças renascem, e precisam renascer, porque afinal esse “mundo bizarro continua a girar.” E girar, e girar.

Homem no Escuro foi, de longe, um dos melhores, mais densos, mais sensíveis e tocantes livros que eu li em muito tempo. Criativo, surpreendente, curioso, doce, sensível, triste, arrebatador, pesado, forte, áspero e dilacerante como a vida. Como toda vida. Não há como ler esta história e não sair dela transformado e amadurecido, da maneira como eu saí. Desde já, neste meu primeiro contato com sua obra, considero-me uma grande fã de Paul Auster.

“Toque em mim, alguém, toque em mim. Ponha a mão no meu rosto e fale comigo...”

Toque em mim. Antes que o peito pare. Antes que a luz da mente se apague. E que tudo seja fim.

Toque em mim.

Pérolas ao chão

"Eu jogo pérolas aos poucos ao mar
Eu quero ver as ondas se quebrar
Eu jogo pérolas pro céu
Pra quem pra você pra ninguém
Que vão cair na lama de onde vêm

Eu jogo ao fogo todo o meu sonhar
E o cego amor entrego ao deus dará
Solto nas notas da canção
Aberta a qualquer coração
Eu jogo pérolas ao céu e ao chão

Grão de areia
O sol se desfaz na concha escura
Lua cheia
O tempo se apura
Maré cheia
A doença traz a dor e a cura
E semeia
Grãos de resplendor
Na loucura

[ eu jogo ao fogo todo o meu sonhar 
eu quero ver o fogo se queimar
e até no breu reconhecer
a flor que o acaso nos dá
eu jogo pérolas ao deus dará ]"
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. Pérolas aos Poucos
Composição de Zé Miguel Wisnik e Paulo Neves
Interpretação divina de Ná Ozzetti (voz) e André Mehmari (piano)
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sexta-feira, 2 de outubro de 2015

What's my age again?

Na minha cabeça hoje a tarde inteira. Esses meus sequestros musicais têm sempre, sempre alguma razão de ser. Observo isso desde adolescente, quando saí do banho certa vez, secando os cabelos molhados e despenteados e usando nada além de um sutiã branco e uma calça branca, e aquela música do Jorge Ben Jor colou na minha mente sem eu querer: "Ela vem toda de branco, toda molhada, despenteada..."

Dessa vez eu não sei o que é. Mas ando precisando de uns bons momentos de intensa catarse nervosa. O ruim é nunca saber se as raivas que eu passo são fruto de uma TPM, de alguma notícia ou acontecimento ruim ou só dos sintomas de um Transtorno de Personalidade Borderline mesmo. Ou tudo junto, como parece ser o caso dos meus últimos três dias. Só sei que eu quero ouvir essa no volume máximo umas trinta vezes enquanto tomo fanta laranja com budweiser e doritos, tudo junto. Uma pena que eu tenha me esquecido dos M&Ms.
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Ouvindo: Blink 182, What's My Age Again?
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Da esperança

Quando você pensa ou ouve falar que esse mundo só piora a cada dia, que está tudo perdido e que o ser humano não vale a pena, só para daí a poucos minutos observar a maioria das lojas e das pessoas em uma certa rua pararem suas vidas para assistir ao resgate de um passarinho machucado que estava no meio da rua e que poderia ser atropelado, aí então, amigo, você tem enfim a certeza: essa vida vale a pena. Esse mundo vale, sim, a pena. Vale a pena acreditar nas pessoas. E em algum momento, ainda que só dentro de centenas de anos, ainda que toda a sociedade e toda mentalidade engessada, a política e a economia precisem quebrar primeiro, em algum momento este ainda vai ser o mundo bonito e justo que tanto sonhamos para os nossos filhos.

Tenho imenso orgulho de ter sido a passageira do taxista que fez o tal resgate.

Gather ye rosebuds while ye may

To the Virgins, to Make Much of Time
Robert Herrick

Gather ye rosebuds while ye may,
Old Time is still a-flying;
And this same flower that smiles today
To-morrow will be dying.

The glorious lamp of heaven, the sun,
The higher he's a-getting,
The sooner will his race be run,
And nearer he's to setting.

That age is best which is the first,
When youth and blood are warmer;
But being spent, the worse, and worst
Times still succeed the former.

Then be not coy, but use your time,
And, while ye may, go marry:
For having lost but once your prime,
You may forever tarry..
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* Notem que Robert Herrick viveu no século XVII, em que os valores de família e de casamento eram totalmente outros. Mas seu poema vai muito, muito além dessas questões. É o "Carpe Diem", o "Seize the Day" daquele tempo. E é dessa forma que ele hoje é disseminado e compreendido. Qualquer espécie de machismo que alguém puder encontrar nesse poema não vem, absolutamente, ao caso.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Cry Baby

De repente me deu aquela vontade de ouvir Janis na vitrola, finalzinho de tarde, aquela chuva preguiçosa caindo lá fora, e aqui dentro uma taça de vinho, e a melhor companhia do mundo...
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Whatever tomorrow brings

Insistindo na minha cabeça desde hoje bem cedo.

"Whatever tomorrow brings I'll be there
With open arms and open eyes."
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Resenha: As Portas da Percepção

Resenha: As Portas da Percepção - Céu e Inferno, de Aldous Huxley
Setembro de 2015

Resenha meio atrasada, mas valendo.

Aldous Huxley vai muito além, nessa obra, de questionar os efeitos da mescalina, ingerindo ele mesmo a substância e associando seus resultados a experiências transcendentais, o que por si só já considero muito válido. Especialmente naquela época em que a contracultura nascia e os Beats se proliferavam, e que precedeu todo o movimento hippie e toda uma aura de libertação, de ruptura com normas rígidas vigentes, da busca pelo prazer, pela liberdade de pensamento e de ação, pela comunhão com o outro, pela geração de uma nova consciência e de uma nova forma de concepção do mundo, de si mesmos e da política de então. Apesar de não ser considerado um dos Beats, um dos porta-vozes oficiais da contracultura, Huxley influenciou de maneira marcante um dos maiores músicos surgidos naquele tempo: Jim Morrison, que retirou justamente do título deste livro o nome de sua banda, The Doors. Tudo isso já havia me deixado honestamente impressionada logo antes de começar, de fato, a ler esta obra de Huxley. Eu, que desde criança sempre ouvi minha mãe falar sobre o Admirável Mundo Novo, e quando enfim o li, adotei esse autor como um dos meus grandes favoritos na época. E confesso que Huxley o é até hoje.

Não, Huxley não se limita a fazer análises objetivas e didáticas do uso da mescalina e de outras substâncias alucinógenas. Ele questiona o uso dessas substâncias tanto como um tipo de resposta a uma necessidade real que as pessoas têm de escapar, por vezes, aos problemas diários, quanto como uma busca de um tipo qualquer de transcendência do espírito, ainda que por um período bastante limitado e completamente induzido por elementos externos. Ele não traz apenas a questão, cada vez mais incisiva e atual, da legitimidade do uso de drogas por parte de quem quer que seja, e de sua legalização ou condenação, mas também da busca da droga “ideal”, uma que não venha a provocar tantos efeitos colaterais negativos e que não produza um vício tão forte e nocivo. Ele traz a questão do uso de alucinógenos em tantos níveis, e tantos questionamentos amplos, a meu ver cada vez mais necessários, que eu realmente considero este um livro que precisa ser amplamente lido por nossa sociedade contemporânea. Um livro que precisa ser analisado, e questionado. Talvez algum tipo de resposta a toda essa questão das drogas possa surgir a partir daí. Ou quem sabe, no mínimo, uma outra luz possa ser lançada sobre a questão. Este livro mexeu muito com a minha visão em relação ao uso de drogas. Eu, que sempre acreditei que o caminho não era, e não é, a criminalização e a repressão dos usuários. Acredito que, quanto mais se cerca, mais a coisa explode. Não creio que seja por aí que iremos resolver essa questão. Por outro lado, não acredito que temos maturidade suficiente para lidar com uma liberação total de substâncias alucinógenas e entorpecentes. Mas acho, sim, que a questão deve ser cada vez mais discutida, e que uma alternativa qualquer, que não inclua uma total repressão e proibição, precisa sair daí. Muito já se perdeu, muita paz e muitas vidas já foram levadas por conta dessa questão. De maneira que é preciso debruçar-se cada vez mais sobre esse quadro.

Huxley nos traz, além de tudo, todo um questionamento sobre a sobrevivência da consciência à morte do corpo. Em Céu e Inferno, ele relaciona toda a problemática do uso dos alucinógenos a uma procura da transcendência do espírito, passando por várias sociedades, desde a antiguidade até então. O “céu” seria associado a uma experiência bem sucedida, de alteração e de uma ampliação da percepção de tudo aquilo que nos cerca, e o “inferno” seriam “bad trips”  experimentadas especialmente por aqueles que lidam com algum tipo de transtorno mental, como os esquizofrênicos. Eu mesma confesso que há muito, muito tempo, especialmente depois que li Verdade Tropical, de Caetano Veloso, aos meus dezessete anos de idade, tenho muita vontade de experimentar alguns tipos de alucinógenos, em especial a ayahuasca, aquela que é utilizada na seita do Santo Daime. Maitê Proença também escreveu maravilhas sobre o chá do Santo Daime em seu primeiro livro, Uma Vida Inventada. Já cheguei a folhear com muita curiosidade, em uma certa feira de livros, um livro imenso tratando apenas a respeito dessa substância. Mas sempre tive muito medo do efeito que esse tipo de coisa poderia produzir em mim, já que desde os meus dezoito anos enfrento crises apavorantes de ansiedade e de pânico. Tenho quase certeza de que o efeito seria uma “bad trip” parecida com o pior dos infernos. Mas um dia eu talvez ainda tome coragem, afinal já passei por coisas que não acredito serem capazes de ficar piores do que já foram um dia. Mas que fique bem claro que seria a título de autoconhecimento, e só. Apesar de já ter experimentado ou mesmo feito uso mais frequente de uma droga ou outra quando mais nova. Não estou aqui fazendo nenhum tipo de apologia ao uso de drogas. Essa não é a minha. Até porque acordada mesmo, em estado normal, já viajo horrores. Risos.

Mas Huxley ainda não pára por aí. Ele ainda faz um breve estudo relacionando o uso de alucinógenos e a busca do ser humano pela transcendência do espírito à maneira como o homem tem, desde a antiguidade, buscado reproduzir elementos “preternaturais” através de paramentos religiosos, através da arquitetura e do paisagismo, e através da arte em suas várias manifestações. Nem as artes cênicas, amplificadas mais tarde por técnicas de iluminação, nem o cinema ou a fotografia, advento que provocou nas artes visuais, em especial na pintura, toda uma revolução e um novo sentido de existir, escaparam à análise de Huxley. “Artes propiciadoras de visões”, assim o autor se refere a tais elementos. Ele analisa ainda o que chama de “desvalorização psicológica produzida pela tecnologia moderna”, e esclarece de que maneira isso ocorre em trechos como este: “Aqueles suntuosos reflexos de superfícies convexas, que tanto fascinaram Rembrandt, a ponto de ele jamais se cansar de representá-las em seus quadros, são hoje coisas banais no lar, na rua e na fábrica. Desapareceu o refinamento do prazer incomum. O que, outrora, constituiu um extraordinário enlevo de visionário foi agora transformado em pedaço de linóleo desprezado. (...) Há, no mundo moderno, cores vivas em quantidade suficiente para permitir a confecção de bilhões de flâmulas e revistas coloridas; de milhões de sinais de tráfego; de luzes traseiras, carros de bombeiros, e de empresas de refrigerantes às centenas de milhares; tapetes, papéis de parede e arte abstrata aos quilômetros quadrados. (...) A familiaridade traz consigo a indiferença.” Huxley consegue relacionar o uso de alucinógenos a toda uma questão, a toda uma crise que a arte enfrenta nos dias de hoje! Eu, sinceramente, achei todo o questionamento e todo o estudo dele excepcional. Vou inclusive voltar ali e dar a este livro cinco estrelas, e não apenas quatro, como tinha feito antes. Risos. Quanta amplitude de visão, e quanta antecipação de uma percepção de questões e de problemas que nos são hoje tão atuais! Eu realmente gostei muito de ter lido este livro, e de ter conhecido este outro lado pensador e visionário de um dos meus escritores favoritos. Não me admira o fato de sua obra ter influenciado tanto aquela geração de Jim Morrison, e de ter marcado tanto toda a arte desse músico, compositor e poeta. E, não bastasse tudo isso, ainda venho a descobrir que foi o avô de Aldous Huxley, o biólogo Thomas Henry Huxley, quem criou o termo "agnóstico". Como boa agnóstica que sou, fico, além de tudo, profundamente agradecida a ele e a toda a sua genética. Risos.

Perdão, quando comecei este texto, não pretendia fazer todo este tratado sobre o livro. Gostaria apenas de encerrar com uma frase de Huxley com a qual concordo muito:

“O passado não é uma coisa fixa e inalterável. Suas realidades vão sendo descobertas a cada geração, seus valores sofrem reavaliações, seus significados recebem novas definições, de acordo com as tendências e preocupações da época.”

De fato, Huxley. E eu diria que o contrário também ocorre. A sabedoria do passado também joga a sua imensa luz sobre o nosso presente, fazendo-nos reavaliar certas questões que consideramos atuais, e dar a elas um outro significado. Muito obrigada por ter aberto, a mim também, as portas da minha própria percepção e concepção da vida.

Digo que estou encantada com uma nova invenção

"Você me pergunta pela minha paixão. Digo que estou encantada com uma nova invenção."

Ouvindo: Black Violin, Virtuoso

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quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Pasión

Quando o flamenco e o tango se encontram.

Essa música fez parte da trilha sonora do filme Tango, de Carlos Saura, 1998. Recomendo muito, tanto o filme quanto toda a trilha sonora.
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De moinhos e de ventos

dizem que ela saiu por aí
lutando batalhas perdidas
escudo aos pedaços
no peito aos pedaços
a lança sem ponta
e a alma sem paz

foi atrás do seu moinho de vento
sem saber que ele já não girava mais
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Humor: arrasada
Ouvindo: Milton Nascimento, Paisagem da Janela
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terça-feira, 29 de setembro de 2015

Epitáfio

Foi honesta consigo mesma, com os outros e com seus próprios sentimentos, até o fim.

A cigana e a louca

Até hoje a minha música favorita de um dos grupos de música flamenca e cigana mais queridos da minha vida. Apesar de que colocar "flamenco" e "cigano" na mesma frase implica em um certo pleonasmo, sendo que o primeiro nasceu do segundo. Esse grupo, que se formou em 2000 e que, apesar dos boatos do seu término, continua em atividade, é formado por ciganos calóns, aqueles que se desenvolveram na região da Andaluzia, na Espanha, e criaram as bases do flamenco como ele é conhecido hoje. Muitas coisas nas músicas deles são ditas em romani, a língua cigana oficial. Inclusive no início dessa música. O vídeo é meio louco, mas o que é que não tem loucura no título, ou no meio, e que não ressoa direto aqui no coração e na alma? rs
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Essa vai para um anjo calón chamado Renzo, que sempre me cumprimentava com um "Optchá Lucita!", e me contava coisas incríveis sobre a vida e sobre os lugares onde ele já havia passado, tudo com uma sabedoria e uma maturidade imensas, que eu sempre achei que não cabiam em alguém que só tinha vinte e três anos de idade. Ele que vinha me falar coisas em romani, só para me ver morrendo de curiosidade e de raiva pela minha própria ignorância em relação à língua dele, mas que depois traduzia tudo com muita paciência, sem deixar de dar risada da impaciência que era minha. Ele que gostava tanto de compor rumbas ao violão, e que um dia veio me contar da ideia genial que teve, de colar moedas em toda a frente do instrumento, e da sensação de ter ficado deslumbrado com o resultado super artístico e estiloso do próprio trabalho, só para depois sentar-se com o violão a postos e descobrir que tinha modificado todas as propriedades musicais e ressonantes do instrumento, e que o violão agora já não tocava mais nada. E todo aquele desespero para retirar moedinha por moedinha, e eu, apesar de sentida por ele, não conseguia deixar de dar risada daquela situação insólita. Ele que decidiu cair na estrada outra vez há exatos sete anos, deixando para mim apenas uma música e uma mensagem gravadas, e nunca, nunca mais deu notícias. Só soube que ele tinha ido com um grupo para a Bolívia, e depois mais nada. Tu não sabes a falta que fazes, querido Renzo. Espero, aqui do fundo do coração, que estejas bem, e que eu ainda ouça falar de ti, nesta nossa vida louca que dá tantas, tantas voltas. Que estejas bem. 

"O céu é o meu teto, a terra é a minha pátria, e a liberdade é a minha religião."

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

domingo, 27 de setembro de 2015

A cigana só

Às vezes é preciso sair de um lugar para que, na volta, você perceba nele coisas em que ainda não havia reparado. Às vezes é preciso sair de um lugar para que você perceba, em você mesmo, coisas das quais sequer suspeitava. Como um homem que pisa um rio já não é o mesmo ao pisá-lo uma segunda vez, e nem o rio é mais o mesmo, o homem que sai de um lugar, ao voltar, nunca mais será o mesmo. Nem ele. E nem o lugar. E o momento... o momento é de preparo. E de partida. Que os bons ventos de Iansã me acompanhem.
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Outra do tempo em que o pop era bom

Outra do tempo em que o pop era bom. E esse saudosismo que não me larga mais agora? E o que é esse início no melhor estilo Liza Minnelli em "Cabaret"? E essa Rita Hayworth que ela encarnou aos 2 minutos e 45? E o preço do pão francês?
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Sequestro 6 0091

Perdi a conta dos meus sequestros mentais musicais. Então vou chamar de "6 0091".
'Cause "this is the flight number
Of our galactic sun" ;-)
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"Sexo verbal não faz meu estilo
Palavras são erros, e os erros são seus
Não quero lembrar que eu erro também

Um dia pretendo tentar descobrir
Porque é mais forte quem sabe mentir
Não quero lembrar que eu minto também

Eu sei
Eu sei

Feche a porta do seu quarto
Porque se toca o telefone pode ser alguém
Com quem você quer falar
Por horas e horas e horas"

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sábado, 26 de setembro de 2015

Luz e sombras

Sou imensamente forte, o mesmo tanto que sou frágil. Preciso de carinho, atenção, amor, companhia, amizade, proteção. E isso de proteção passa longe de qualquer papo antifeminista. Quaisquer dois seres humanos, juntos, oferecem cuidados e proteção um ao outro. E isso é necessário. Para além de qualquer feminismo, isso é uma questão de sobrevivência neste nosso mundo louco. E não, não me envergonho dessa dualidade que vejo claramente em mim. Porque jamais me envergonharei de ser um ser humano, em toda a sua totalidade, lutando por ser pleno, e por ser cada vez melhor. Não me envergonho de existir por inteiro. Aí, talvez, resida a minha maior força.

Pássaros de fogo

Um dia essa tristeza vai ser tão insuportável que vai acabar por me consumir. Como um pássaro de fogo que se consome em cinzas, e se esquece de voltar à vida.

"Oh, baby, baby, it's a wild world
It's hard to get by just upon a smile
Oh, baby, baby, it's a wild world
I'll always remember you like a child, girl"
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Character

Strength = 16
Dexterity = 18
Agility = 18
Wisdom = 12
Push people away = 50

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Elara e a torre

"Drink up, baby, look at the stars
I'll kiss you again between the bars
where I'm seeing you there
with your hands in the air
waiting to finally be caught"
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Elara por vezes se abria como uma flor, linda, iluminada e vaidosa. Por vezes se fechava completamente, como a mais teimosa e tímida das ostras. É que já se havia deixado machucar tanto, tanto. Fechar-se e negar a si mesma os amores e os prazeres do mundo muitas vezes parecia ser a alternativa mais fácil, a mais segura. Elara não sabia que a segurança não existia. Não neste nosso mundo. Não sabia que arriscar-se era o único caminho. A única maneira de viver: de viver por inteiro. De ser plena, por dentro, e por fora.

Elara queria companhia, queria um amor. Um amor desses de fazer perder a cabeça, de fazer transbordar o peito machucado, de dar sentido à alma, de dar sentido, e cores, à vida. Mas toda vez em que arriscava colocar um dos pés para fora do seu mundo fortemente murado, logo se recolhia outra vez, assustada e insegura. Lá fora parecia que o chão dançava, e ela então se desequilibrava, perdia os passos, o ritmo, a música, a dança. A vida.

Ela queria se aproximar das pessoas que mais lhe interessavam, e dizer coisas. Dizer que o seu nome era o nome da décima segunda lua de Júpiter, que gostava das estrelas, que sabia o nome de muitas delas, e de várias constelações e aglomerados. Queria dizer que sua formação estelar favorita eram as Plêiades, formada por sete estrelas irmãs. E que aquela manchinha bem pálida e discreta, aquela perto da cauda da constelação de Escorpião, tão semelhante a ela mesma por sua discrição, chamava-se Messier 7, ou Aglomerado de Ptolomeu. Mas isso talvez não interessasse a mais ninguém. Queria dizer que gostava de perder-se por horas olhando o mar, e sentindo o vento bater nos cabelos. Que amava a natureza e os animais, e que tinha pensado em ser veterinária ou bióloga marinha. Queria dizer que gostava de fazer longas caminhadas sozinha no parque, pensando, pensando, e ouvindo Elliott Smith no celular. Dizer que o seu grande sonho de criança era ser uma bailarina profissional, e viver dançando e viajando pelo mundo todo com sua arte. Dizer que amava arte. E que também adoraria passar a vida toda estudando e frequentando ambientes acadêmicos. Queria dizer que era fascinada por aviões, especialmente os modelos antigos, e os militares. Mas talvez... isso não interessasse a mais ninguém.

Um dia, enquanto olhava por entre as frestas, Elara viu alguém e se apaixonou. Como nunca na vida havia se apaixonado. Era um amor desses de fazer perder a cabeça, de fazer transbordar o peito machucado, de dar sentido à alma. De dar sentido, e cores, à vida. De repente ela sentia que tudo estava no lugar onde deveria estar. Exatamente onde deveria estar. Menos ela. Ela que erguera uma torre tão forte e tão alta em torno de si própria, e que agora já não sabia mais como sair. Amava desesperadamente, mas não podia, não conseguia estar perto daquele que era o objeto de sua grande paixão. Trocaram apenas alguns olhares e sussurros por entre aquelas frestas.

Então, apavorada, Elara procurou algo com que pudesse construir uma escada até o alto, e então escapar da gigantesca torre que erguera ao redor de si. O trabalho foi lento. Muito lento. E ela tinha medo de que, ao chegar lá em cima, ele talvez já não estivesse mais lá. Mas continuou firme, constante, com as forças que só a paixão é capaz de dar às pessoas. E enfim a escada ficou pronta. Postou-se no último degrau e olhou em volta. O vento soprando forte em seu rosto e despenteando os cabelos longos, desfraldando o longo vestido branco. O sol havia se posto há poucos minutos, e ela parecia estar agora bem perto das estrelas. Era quase como se pudesse tocá-las. E a vista lá de cima era algo incrível. Mas onde estaria ele?

Cuidadosamente, amarrou, uns aos outros, pedaços de cordas, de roupas, de lençóis que trouxera consigo, rezando para que aquilo fosse o suficiente. E começou a descer com todo cuidado. Mas... onde estava ele? Será que não a correspondia? Será que a luz dos seus olhos e a maciez da sua voz, as palavras sussurradas por entre as frestas daquela muralha, não o haviam tocado, como ela imaginara? Muito angustiada, continuou a descer com cuidado. Mas a certa altura, reparou em algo que antes não havia notado. No lugar onde antes estava o rapaz, erguia-se agora uma outra torre, um pouco mais baixa do que a dela, e aparentemente mais recente.

Pôs, enfim, os pés no chão. Como era bom sentir a grama sob os pés descalços, e um tanto machucados. Chamou-o pelo nome. Nenhuma resposta. Chamou outra vez, e ainda outra. Nada. Nem ao menos uma espécie qualquer de eco. Foi então que viu aquele pedaço de papel já meio amarelado pelas intempéries, pregado a uma pedra, à altura dos olhos. Aproximou-se. A assinatura era dele. Elara, ele dizia, eu esperei por você. Mas tive medo. É que eu já me deixei machucar tanto, tanto. Eu quis um amor. Um amor desses de fazer perder a cabeça, de fazer transbordar o peito machucado, de dar sentido à alma. De dar sentido, e cores, à vida. Mas quanto mais você demorava, mais o meu medo crescia. Erguer esta torre em volta de mim foi a única maneira que encontrei para me proteger. Para não me ferir mais. Não podemos estar juntos. Nossos espinhos acabariam por ferir um ao outro. Espero que entenda. Espero que respeite esta torre que fiz para a minha própria segurança, e para a sua. Para o meu próprio bem, e para o seu. Não procure subir. Não procure ir além dos limites que eu lhe impus. Esqueça-me. Será o melhor para os dois. Cuide-se bem, e seja feliz. No fim da mensagem, bem lá embaixo, e com uma caligrafia mais apressada, ela leu: tome aquele banho de mar que teríamos gostado tanto de tomar juntos.

Elara estava perplexa. Mortificada. Arrancou da pedra aquele papel, e com ele nas mãos, andou sem destino por muito, muito tempo. De vez em quando avistava um par de torres altas. Até que elas foram escasseando, pouco a pouco. Sentia a brisa, o cheiro e a proximidade do mar. Ah, o mar. O alívio para todas as dores que dançavam sem licença dentro dela. Dores que ela ainda não conseguia compreender, e nem nomear. Àquela altura o céu já começava a clarear, bem aos poucos. Andou na direção do mar, devagar, ainda com o papel nas mãos. A espuma das ondas tocou seus pés. O vento estava forte, agitando-lhe os cabelos e o longo vestido branco. Descalça, foi adentrando cada vez mais aquela imensidão salgada. De repente nada mais importava. De repente, tudo por que ela ansiava era pertencer àquela imensidão azul. Tão calma. Tão bonita e tão calma. Foi quando uma mão tocou seu ombro direito. Se pudesse, ela teria saltado, tamanho o susto.

Elara, disse ele. Eu te esperei. Eu sabia que viria para cá. Tive muito medo, e construí aquela torre em volta de mim. Mas então tudo deixou de fazer sentido. E eu escalei a torre. E saí. E agora, Elara perguntou, agora faz sentido? Eu quis um amor, ele disse. Um amor desses de fazer perder a cabeça, de fazer transbordar o peito machucado, de dar sentido à alma. Ela o olhou nos olhos úmidos enquanto ele continuava. Quis um amor de dar sentido, e cores, à vida. E ele não estava dentro da torre. Ele está aqui?, ela perguntou. Está, ele disse. Eu? Perguntou outra vez. Eu, ele disse. E encheu as mãos com a água do mar, e encharcou o vestido e os cabelos dela. Ela encheu as mãos também, e o encharcou inteiro. As risadas ecoaram longe. E foram ouvidas dentro das outras torres, não muito longe dali.

Naquele mesmo dia, bem mais tarde, se não houvessem prestado atenção apenas um no outro, os dois teriam visto dezenas de cordas sendo atiradas para fora das torres.



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Grande parte de toda dor vem dos espinhos, e dos muros, com que precisamos nos armar e nos cercar para dar conta dessa vida.

Ouvindo: Elliott Smith, Between the Bars 

Nothing's gonna change my world

Outro sequestro. Adoro essas músicas que vêm à minha mente do nada e trazem uma mensagem que eu precisava ouvir.

"Nothing's gonna change my world."

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No problem

E essa é porque eu sou fã mesmo, e porque hoje é sexta, né? Vamo colocar esse humor pra cima.
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This is it, the apocalypse.

Lindsey Stirling, um violino, um violoncelo e o absolutamente maravilhoso Pentatonix​ num cover lindo do Imagine Dragons. 

"This is it, the apocalypse."
Mas, de qualquer forma, a gente vai sobrevivendo.
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quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Por entre as barras

Na minha cabeça essa noite.
Sinto-me cada vez mais em casa aqui.


Between The Bars

Drink up, baby, stay up all night

The things you could do, you won't but you might
The potential you'll be that you'll never see
The promises you'll only make

Drink up with me now and forget all about the pressure of days

Do what I say and I'll make you okay and drive them away
The images stuck in your head
People you've been before that you don't want around anymore
That push and shove and won't bend to your will
I'll keep them still

Drink up, baby, look at the stars, I'll kiss you again

Between the bars where I'm seeing you
There with your hands in the air waiting to finally be caught

Drink up one more time and I'll make you mine

Keep you apart deep in my heart separate from the rest
Where I like you the best
And keep the things you forgot
The people you've been before that you don't want around anymore
That push and shove and won't bend to your will
I'll keep them still                  

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Papo sério. Mas nem tanto.

Há muitos anos acompanho o trabalho do Saulo Calderon e os vídeos que ele grava. O trabalho dele é sobretudo dedicado a quem tem experiências de estar fora do corpo, as chamadas "projeções astrais", ou "viagens astrais", e as utiliza para fazer o bem, amparar e ajudar almas que sofrem. Eu, na verdade, ainda não consegui ter nenhuma experiência fora do meu próprio corpo. Tentei algumas vezes, relaxei e deixei meu corpo estar, e a minha mente vagar, mas sempre que sentia que algo estava para acontecer, quando tudo começava a rodar e a parecer fora de lugar, quando eu sentia o meu corpo extremamente leve, flutuando e prestes a ter uma dessas experiências, eu sempre acabava interrompendo, por medo. Mas muita coisa mudou de lá pra cá, e eu provavelmente vou procurar repetir a experiência qualquer dia desses. Seja pela técnica do “Cordão de Prata” ou por qualquer outra. Mas gosto muito de acompanhar os vídeos que o Saulo grava, com as "Frequently Asked Questions", pelas ideias maduras, embora cheias de brincadeiras descontraídas que eu adoro e que fazem parte, pela grande experiência espiritual e de vida que ele tem a transmitir, pela base claramente espírita que eu percebo em seu trabalho e em suas ideias, e pela simplicidade, leveza e bom humor que são sua marca registrada, e que eu acho imprescindível em qualquer tipo de trabalho ou de relacionamento. Pois bem, tudo isso dito, Saulo devidamente apresentado, lá fui eu fazer a ele a minha primeira pergunta, depois de tantos anos acompanhando o seu trabalho. E, olha só, fui logo selecionada, e a primeira a ser respondida no vídeo!

Muitíssimo obrigada, Saulo, pelo carinho, pela atenção e pela resposta animadora. Perguntei a ele o que se deve fazer quando tudo parece sem solução, sem saída, quando tudo na sua vida parece de repente estar arruinado. Eu tenho questões internas muito complexas, sou bipolar, borderline, tenho fobias paralisantes e crises de pânico horríveis, muitas vezes uma se confundindo com a outra, mas me trato há muitos anos para resolver essas questões. Certamente dependo de remédios para controlar tudo isso. Não posso passar sem eles, e essa tem sido a grande prioridade de nossa família: a saúde. Ao mesmo tempo tenho muitas questões externas também. Atualmente parece que tudo se arruinou, não de uma hora para a outra, mas foi um processo, algo desencadeado por escolhas minhas, e algo desencadeado por coisas da vida mesmo, a que todo mundo está sujeito. Uma dessas minhas escolhas foi uma mudança de uma cidade para a outra, assim que percebi que estava me sentindo mais segura, procurando desesperadamente me arrancar de uma inércia de morte após dois longos períodos de depressão, e ao mesmo tempo louca por acumular experiências novas, porém contando quase que unicamente com o meu imenso otimismo. Em relação a questões externas, fui perdendo quase tudo aos pouquinhos... perdi minhas malas com muitas das minhas coisas mais caras (para mim, não no sentido financeiro), perdi a maioria das minhas roupas, calçados, acessórios, livros, inclusive alguns bem antigos e de valor sentimental para mim e para meu pai, dvds, materiais de trabalho, perfumes caros, documentos e coisas emprestadas pelos outros inclusive. Fui assaltada e perdi meus documentos praticamente todos. Perdi meus óculos, e até que eu consiga fazer óculos novos, pois nossa situação financeira anda extremamente complicada, estou sendo obrigada a ler tudo com o auxílio de uma lupa horrível, prejudicando ainda mais a minha visão. Minha meta de leitura anda extremamente atrasada por isso, além das confusões da mudança no primeiro semestre. Perdi meu emprego. Meu celular antigo e barato pifou, e não tenho ainda condições de comprar outro. Meu computador, também antigo, está a ponto de pifar de vez. Está extremamente lento, e já não consigo visualizar cerca de 80% das imagens, e nem acessar cerca de 70 a 80% das páginas que tento abrir, mesmo depois da formatação. Perdi minhas coisas físicas, e as virtuais também, uma vez que terminei um namoro breve e recente (outra perda), e os meus dvds de backup ficaram com ele, que decidiu que aquilo precisava ser passado imediatamente para um HD externo, para que eu não perdesse os meus documentos, vejam só que ironia do destino. E agora eu simplesmente não consigo mais entrar em contato com ele, desde que terminamos. Então aí lá se vão meus documentos virtuais, projetos, meus textos todos, desde a época do meu primeiro blog, em 2004, projetos de livros e livros completos, fotos de família, de amigos, de eventos importantes como a formatura dos meus irmãos e de amigas, do casamento do meu irmão e de uma de minhas melhores amigas, de quem eu fui madrinha. Perdi recordações, planos, tudo, tudo o que eu tinha no computador que levei para formatar, e não tive tempo de passar novamente para o meu computador. Minhas coisas foram indo embora, inclusive o namoro, assim, uma por uma, até restar quase que apenas... eu. Meu relacionamento com a família está péssimo, além de tudo. E ainda tenho me sentido extremamente sozinha. Apesar de desejar amor, amizade e companhia como um beduíno deseja água no deserto, tenho muito medo de voltar a errar com as pessoas, com os amigos, familiares e amores que foram ficando para trás, por causa da impulsividade e da perda dos limites, da medida das coisas, quando meus sintomas bipolares e borderline estão fora de controle por alguma razão. Tenho muito, muito medo de errar com as pessoas novamente. Especialmente com aquelas que me despertam um afeto e um interesse maior. Então estou naquele ponto em que preciso recomeçar do zero. Mas do zero mesmo. Mas sou forte, muito forte e otimista. Eu acredito que quando vim a este mundo, ou fui eu quem escolheu provas bastante pesadas, ou elas foram escolhidas para mim. Mas estou aqui, firme, forte, e querendo lutar, e me reconstruir. Não é à toa que o meu arcano, no Tarot, é o de número 16. A Torre, ou A Casa de Deus. Queda de coisas que precisavam ser mudadas, destruição de toda ilusão, reconstrução e conhecimento. Sei que em algum momento as coisas irão entrar nos trilhos outra vez. E melhores do que antes, acredito.

Deixo aqui então a resposta do Saulo, logo nos primeiros minutos do vídeo. Que ela possa servir para tantas outras pessoas que se encontram, também, momentaneamente perdidas e sem chão.
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Anexo 1: Vim pedir perdão pelas "provas bastante pesadas". Afinal, ainda que pouca gente saiba o que é passar por uma desesperadora crise de pânico e enfrentar certos transtornos mentais e suas respectivas comorbidades, muita, mas muita gente sabe o que é perder tudo, e o que significa não ter nada. Mas nada mesmo além de si, e dos entes queridos. Muitas vezes, nem com os entes queridos se pode mais contar. A gente na verdade tem mais é que agradecer, agradecer pelo que tem, ainda que seja pouco, e agradecer especialmente pela oportunidade que essas crises nos trazem de vencermos mais uma batalha, e dela sairmos ainda melhores e mais fortes. Envergonho-me. Apesar de toda a minha história difícil de vida, apesar de todo o peso, de todas as atribulações por que tenho passado, bem ou mal eu tenho dado conta de carregar essa cruz que me foi confiada. E vou continuar a carregá-la. De cabeça erguida.

Anexo 2: Andei dizendo por aí que estava passando por um momento em que minha vida parecia arruinada. Preciso muito desmentir essa afirmação, e pedir perdão. Porque quem tem bons amigos, quem ama e é amado de volta, tem tudo. Tudo o que realmente importa nessa vida.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Recado

Trazendo um aviso importante do facebook para cá: 

Quando posto algo sobre tristeza, uma tristeza que é certamente passageira, porque eu já decidi aqui dentro que não vou me entregar a nenhuma outra depressão enquanto eu puder escolher, eu preciso apenas de compreensão, de carinho e, se possível, de companhia. Porque tenho, sim, me sentido miseravelmente sozinha. Não me falta coragem, apesar de que é sempre bom ouvir um incentivo. Não me falta força, isso eu tenho de sobra, pra dar e pra vender. Não me falta um lado espiritual desenvolvido, porque eu sempre fui, e sou cada vez mais, extremamente espiritualizada, e tenho toda essa questão muito bem definida dentro de mim, apesar de me considerar oficialmente agnóstica. Não tente me fazer comprar suas crenças, e o seu modo de vida. Tenho os meus. E não, não vou apagar e nem procurar evitar expressar aquilo que é uma parte extremamente importante de todo esse meu processo de amadurecimento e crescimento pessoal. Seria como tentar apagar uma parte importante do meu próprio caminho, e da minha própria história. Seria como tentar arrancar aqueles degraus quebrados que eu precisei atravessar. Aqueles mesmos que, se não estivessem ali, eu nunca teria atravessado. Devo muito a eles. Inclusive os meus melhores momentos. E não tenho medo de viver por inteiro, as boas e más coisas, os sentimentos agradáveis e aqueles que não o são de maneira alguma. Não tenho medo de mergulhar nos meus próprios sentimentos, sensações e pensamentos e de me conhecer cada vez mais e melhor. Imagino que certas postagens devem incomodar. Mas se você quiser me aceitar, vai ter que ser por inteiro. Não sou, e nunca fui, mulher de metades.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Dos caminhos

O caminho da gente é sempre, e invariavelmente, um caminho desgraçadamente solitário. Aquele por onde ninguém mais pode passar pela gente. Aquele que ninguém mais pode sentir pela gente. Ainda que a gente se doe sem medidas. Ainda que um ou outro possa, eventualmente, nos acompanhar.

Recitando

Ha! A pessoa pobre quando pega o iPhone da irmã emprestado vira criança, né? Recitei dois dos meus grandes poemas favoritos. O primeiro é de autoria da brasileira Adélia Prado, "O Intenso Brilho".

O Intenso Brilho
Adélia Prado

É impossível no mundo
estarmos juntos
ainda que do meu lado adormecesses.
O véu que protege a vida
nos separa.
O véu que protege a vida
nos protege.
aproveita, pois,
que é tudo branco agora,
à boca do precipício,
neste vórtice
e fala
nesta clareira aberta pela insônia
quero ouvir tua alma
a que mora na garganta
como em túmulos
esperando a hora da ressurreição,
fala meu nome
antes que eu retorne
ao dia pleno,
à semi-escuridão.
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Este é o segundo poema, da norte-americana Sylvia Plath. "Mad Girl's Love Song".

Mad Girl's Love Song
Sylvia Plath


I shut my eyes and all the world drops dead;
I lift my lids and all is born again.
(I think I made you up inside my head.)
The stars go waltzing out in blue and red,
And arbitrary blackness gallops in:
I shut my eyes and all the world drops dead.
I dreamed that you bewitched me into bed
And sung me moon-struck, kissed me quite insane.
(I think I made you up inside my head.)
God topples from the sky, hell's fires fade:
Exit seraphim and Satan's men:
I shut my eyes and all the world drops dead.
I fancied you'd return the way you said,
But I grow old and I forget your name.
(I think I made you up inside my head.)
I should have loved a thunderbird instead;
At least when spring comes they roar back again.
I shut my eyes and all the world drops dead.
(I think I made you up inside my head.)
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domingo, 20 de setembro de 2015

De quando o pop era bom

Na minha cabeça essa noite. Essa é de quando o pop ainda valia a pena. Os arranjos musicais eram péssimos, é verdade, alguns até irritantes. Mas a melodia e algumas letras compensavam tudo. Cyndi era absolutamente diva. Os Goonies que o digam.

E a vida parecia tão mais respirável naquela década de oitenta...
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sábado, 19 de setembro de 2015

Stronger

"Thank you India
Thank you terror
Thank you disillusionment
Thank you frailty
Thank you consequence
Thank you thank you silence"

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Blue Ruin

Quando tudo parece estar no chão, a única alternativa possível é reerguer-se.

Arcano

XVI. A Torre ou Casa de Deus
O Arcano da Libertação e da Construção
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Significados simbólicos:
Rompimento das formas aprisionadoras, liberação para um novo início. Desafios dos momentos de transição. Destruição da rigidez e das cristalizações desnecessárias. Abertura. Conhecimento. Desmoronamento e queda. Quebra dos limites de segurança.
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Interpretações catastróficas do meu arcano nunca me interessaram.
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Por curiosidade, a numerologia considera o 16 como um 7. A energia dupla sob a qual eu nasci, e o número que eu adotei no coração desde os meus sete anos de idade. Todos os números a partir de dois dígitos são somados, com exceção do 11, que é considerado o número da luz e da perfeição. E sim, quando mais nova eu tinha essa mania de ficar somando tudo que era número, e depois comparar com os significados da numerologia, em que eu, aham, não acreditava. Ainda bem que a mania passou, né? rs
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Certas memórias ficam pra sempre claras na cabeça da gente, né? Lembro perfeitamente daquele dia de aniversário. "Você está fazendo sete anos.", "Que legal! Eu adoro o número sete! Acho que é o número mais bonito que existe! Vou adorar ter sete anos!", "Sabia que você nasceu em 77?", "É mesmo? Que legal!!!". De fato, aquele foi um ano incrível na minha vida. Fui muito feliz, brinquei muito, fiz ótimas viagens, e fui premiada com uma medalha de primeiro lugar pelo meu primeiro livrinho, escrito aos seis anos, num concurso de literatura infantil do SESI. Foi também o ano da minha estreia nos palcos. Minha primeira maquiagem nos camarins, meu primeiro figurino, de Alice, do Lewis Carroll, minha primeira vez atrás das coxias, minha primeira vez sob as luzes transformadoras de um palco, meu primeiro público. O espetáculo tinha sido produzido e dirigido por meus pais, em ocasião do meu aniversário, e do aniversário de minha irmã, que é dez dias depois do meu. O texto da peça era uma adaptação de autoria de minha mãe. O elenco contava com cerca de sessenta crianças. Absolutamente inesquecível.

Um pouco mais tarde, entre os dez e os doze anos de idade, meu único amiguinho na escola era o Astolfo. Ele tinha nascido em 7/7/77, e tinha umas ideias meio alucinadas sobre Budismo. Aprendi algumas coisas sobre essa religião com ele. Gostaria de saber por onde ele anda...

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Impasse

Quanto mais o coração transborda, mais a cabeça julga.
Quanto mais a cabeça julga, mais o coração transborda.

Humor: arrasada.
Ouvindo: Amy Winehouse, You Know I'm no Good
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Tudo o que ainda não feri

“Tudo o que em nós ainda não morreu, cercado por tudo o que já mataram, é uma ilha."
Solidões, Oswaldo Montenegro, 2013

Tudo o que eu ainda não feri, ou arruinei, cercado por tudo o que não resistiu... é também uma ilha.

Ouvindo: Beck, Everybody's Got To Learn Sometime.
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quinta-feira, 17 de setembro de 2015

"The world forgetting, by the world forgot."

"It's goddamn freezing on this beach. Montauk in February. Brilliant, Joel. Page is ripped out. Don't remember doing that. It appears this is my first entry in two years..."

Diário de uma border bipolar

Mesmo naquilo que dói, como a pior das bofetadas, como uma porta que bate na cara, enxergo que há algo muito errado e que passou da hora de desacelerar... O mal já está feito. A compreensão veio tarde demais, outra vez. Só me resta respirar fundo, procurar a sensatez que foi parar lá no fundo da bolsa, pedir perdão mais uma vez, e agradecer ao responsável, já com a consulta devidamente adiantada, e a nova medicação devidamente suspensa. Quanto mal é preciso causar a quem se quer bem? Quantas vezes é preciso errar, sofrer e fazer sofrer até que as coisas cheguem ao seu devido lugar? A cura de fato existe? Vai existir um dia?

Humor: arrasada.
Ouvindo: "Breathe", Urban Myth Club.

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